terça-feira, maio 08, 2012

Era uma casa...

...nova.


Nem bonita nem feia, nem grande nem pequena, nem muito alegre mas também nenhum pouco triste. Era uma casa nova ainda. Com um longo caminho pela frente.


Essa aqui continua na ativa por enquanto. Porque quando a gente não se acostuma com o colchão novo acaba mandando trazer de volta o velho.

quarta-feira, abril 18, 2012

In progress


Somos hoje aproximadamente um sexto do que éramos quando este blog existia. Leitor é assim: a gente leva anos pra conquistar e dias pra perder pra sempre. O que eu esperava, não é mesmo? Depois de todo este abandono?


Acho que é o mesmo que eu esperava depois de cinco anos fora: que o mar fosse se abrir pra gente passar. Que um celular novo fosse brotar no meu bolso, que algum proprietário  fosse me implorar pra eu alugar o apê dele, que no meu trabalho me convidassem pro melhor posto, no horário de trabalho mais conveniente.


Chegar é difícil pacas. Só não é pior que partir.


Então estou chegando, e esse gerúndio está quase no fim. Não porque eu queira - ou saiba - terminar de chegar, mas porque as coisas vão pra frente mesmo, que afinal de contas é esse o sentido inexorável da vida.


Aprendi nessa volta que não há voltas. Que quando voltamos tudo saiu do lugar onde deixamos, inclusive e principalmente nós mesmos. É tudo uma questão de reinvenção, não de reencontro. E é por isso mesmo que, exatamente como eu já desconfiava, esse blog está prestes a acabar - para que outro possa nascer.


Wish me luck. Eu faço o mesmo por vocês - os poucos queridos que restaram e que continuam aparecendo por aqui absolutamente e inexplicavelmente todos os dias.


Até loguinho.

quinta-feira, janeiro 26, 2012

Rizoma


Eu devia ter aprendido essa palavra numa aula de biologia, no segundo grau. Mas foi no meu mestrado em literatura que eu retive o que quer dizer um rizoma: raízes múltiplas, frequentemente aéreas, como as das orquídeas e das samambaias - em oposição às raízes profundas, estanques e únicas.


Edouard Glissant (que leu Deleuze), o teórico do pós-colonialismo que a minha professora gostava de citar, explicava que no mundo de hoje as culturas se entrelaçam, se misturam, às vezes explicitamente, numa experiência vivida em culturas diferentes, às vezes discretamente, no escurinho de um filme iraniano que te toca sem você saber, de uma música africana que te move sem que você entenda porque. Nossas raízes são múltiplas, subterrâneas ou aéreas, finininhas, móveis, flexíveis, não são duras nem estanques.


Eu voltei pra minha terra. Não sem dor, arranquei meus rizomas múltiplos do betume parisiense e ofereci a eles a terra vermelha, que nem anda tão seca assim. Minhas raízes continuam múltiplas, bifurcadas, leves, finininhas, curiosas, ávidas por água e por novas conexões. Eu sou uma orquídea e sou uma samambaia.

quinta-feira, janeiro 05, 2012

Démélanger


Toda santa vez que a minha amiga alemã fala déménager (mudar-se) eu entendo démélanger - uma palavra que, se existisse, significaria algo como desmisturar.


Não sei se é o sotaque alemão falando francês ou, mais provável, se são os meus ouvidos brasileiros ouvindo o francês de uma alemã que promove esse fenômeno fonético, mas o fato é que a gente não pode falar sobre o meu monotema sem que eu mergulhe em elucubrações filosófico-lexicais.


Eu escuto démélanger e imagino - quase posso ver - um emaranhado de fios coloridos bem misturados sendo desenredados um a um. Puxo um deles e desaparece o hábito de comer iogurte com geléia. Com outro, as palavras francesas que incorporei ao meu vocabulário. Mais um e desaparecem os meus amigos que conheci em Paris. Ainda outro e somem minha coragem de andar de bicicleta, as mal-tocadas notas que aprendi no piano ou, pior, o tempo, o prazer, a realização que vêm do meu reencontro com o desenho. Todos os meus piores medos habitam nessa palavra que eu escuto errado.


Até que me dei conta que esse ato de desemaranhar fios tem outro nome em francês. Se chama démêler. Démélanger não existe mesmo - justamente porque é um ato impossível. Não se tira o chocolate misturado no leite. Uma vez feito o verde, não se separa mais o azul do amarelo. Desmisturar é impossível. E vocês não tem ideia de como isso me soulageou.

sexta-feira, dezembro 30, 2011

Pictoplasma


Já foi ver a Pictoplasma, na Gaité Lyrique? Tem um desenho meu no quadro grandão, um dos quinhentos selecionados entre mais de cinco mil desenhos submetidos. Se você quiser, pode deixar a sua contribuição sobre como imagina seu monstro. A ideia é mostrar como os medos do mundo inteiro são representados agora que o planeta ficou pequeno e todo mundo fala a mesma língua. Eis o meu monstro, que não mete medo em ninguém.



segunda-feira, dezembro 26, 2011

Feliz tudo!

Por que não existe um botão mental que permita de publicar posts no blog sem precisar parar, escrever, desenhar? Direto da ideia para a rede, para poder dividir com vocês todas as emoções, impressões, expectativas que estão fazendo parte desses dias loucos sem precisar dispensar o tempo que isso exige...


Penso em vocês sempre e voltarei em breve com mais conteúdo e menos chororô. Até lá, desejo feliz tudo a todos. ♥!

quarta-feira, dezembro 21, 2011

quarta-feira, dezembro 14, 2011

Drawing goodbyes 3


Que atire a primeira pedra, não é mesmo?


Será que existe número favorito da operadora dela pra ligar de graça pro Brasil? Vou ter saudades disso.

quinta-feira, dezembro 08, 2011

Drawing goodbyes

É só o que tenho feito: ao invés de ganhar a rua, me tranco em casa desenhando despedidas. Transformando Paris em cenário e imortalizando em personagens a saudade que vou sentir da convivência intensa, cúmplice e valiosa com mulheres incríveis que eu tive a sorte de encontrar por aqui.

Mais do que amigas, elas se tornaram companheiras de viagem - não só pelos quatro cantos dessa cidade incrível, mas nessa aventura mais incrível ainda que é crescer, se conhecer, amadurecer. Sem elas essa experiência não teria sido como foi. Elas sabem de quem eu estou falando.

sábado, dezembro 03, 2011

A piada sobre meu nariz


Teerã, Irã

Eu era engraçada antes. Engraçada mesmo. Tudo o que eu dizia ou fazia era engraçado. Acho que você teria rido. E eu ia achar legal. Queria poder te provar como eu era engraçada antes, eu ia ficar ainda mais engraçada tentando. Eu sei que é difícil de acreditar quando você me vê agora. Eu sou tão bonita, né? Não sou bonita? As meninas bonitas não têm nada de especial. Elas se parecem com aquilo com o que todo mundo sonha, mas elas não se parecem com nada muito específico. Quando alguém descreve uma pessoa bonita, é mais ou menos assim: "Ah, essa menina, a Ashley, ela é tão bonita!". Mas quando a gente descreve meninas que não são tão bonitas, há sempre alguma coisa a mais a se dizer sobre elas, sobre a aparência delas. Ah, Maria é aquela com os cabelos esquisitos, ou Taina, as pernas delas são meio curtas mas ela têm seios maravilhosos.

Antes, quando eu era engraçada, eu parecia engraçada. Eu era como se algo imprevisível estivesse sempre a ponto de acontecer. Isso tinha a ver com meu nariz. Ele era grande, feio e engraçado. Meu nariz era engraçado. Você me encontrava, você encontrava meu nariz. Oi, bem-vindo ao meu nariz. Eu não tinha rosto. Só um nariz. Só um grande nariz ridículo e engraçado. Pode ser tão intenso um nariz. Quer dizer, você já parou realmente um tempo pra olhar o seu? Eu olhava o meu o tempo todo. Ele me impressionava. O que é exatamente um nariz? Até a palavra é engraçada. Nariz. O conceito do nariz.

Meu nariz deixava todo mundo à vontade. Ele soltava as línguas das pessoas. Um pouco como uma garantia de confiança. É complicado de explicar, mas meu nariz me dava todos os direitos. Ele me tornava audaciosa. Eu me dizia: já que você nunca vai ser uma delas, então seja você mesma. Eu era a palhaça da minha classe. Eles me chamavam de Gonzo. Como a marionete.

Meus parentes não são malvados. Eu sei que eles me amam. Eu sei que eles querem o melhor para mim. O que eles acreditam ser o melhor para mim. Eles acham que sabem. Por amor, meus pais planejaram, organizaram e finalmente conseguiram matar meu nariz. Assassiná-lo.

Aos meus 16 anos, eles pagaram um homem para tirar meu nariz. Eles contrataram um matador de aluguel para colocar meu pobre nariz no chão. O único problema é que meu nariz era apegado a mim.

Eu não tinha nem ideia do que me aguardava. Eles não paravam de me dizer que eu seria feliz, que tudo seria melhor e que eu os agradeceria porque toda a minha vida seria mais fácil. Eu pensava que eles iam me levar ao Paradise Change, que eles iam me levar para comer no meu restaurante chinês preferido. Ao invés disso, a gente chegou numa pequena clínica. Eu não entendia nada. Havia um doutor que, estranhamente, tinha um nariz grande também. Ele me disse que seria um procedimento realmente muito simples. Minha mãe tinha uma cara meio culpada, mas ela continuava a sorrir. Depois o doutor me sedou com medicamentos. Eu não me lembro de nada. Quando eu acordei, sentia uma náusea horrível e eles estavam todos estranhos andando em volta de mim, eu sabia que alguma coisa de grave tinha acontecido. Eu comecei a vomitar carne, osso e sangue. Meu nariz escorria para todo lado, martelado, reduzido em migalhas. Eu chorava e eu não sabia exatamente como chorar sem nariz. Meu pai pegou minha mão e disse: "você vai ser uma princesa agora" e eu respondi: "eu não quero ser uma princesa. Eu era feliz palhaça. Meu nariz me transbordava mas ele me dava uma história, um mistério. Ele era o que eu era. E agora não sobrou mais nada além dessa confusão no meio do meu rosto. Eu era a Mesopotâmia e agora eu não passo de um centro comercial".

Eu sei que é difícil de acreditar mas eu nunca quis ser bonita. Eu me sentia mal por todas essas meninas bonitas que a gente vê por todo canto. Elas não abrem a boca, nunca fazem nada de especial. Só... bonitas. Peixes num aquário. Nadando em círculos, observando. De vez em quando beliscam comidinha de peixe, mas só beliscar, hein?, porque bonitas e magras são sinônimos, a gente sabe bem. É um pouco esse o problema quando a gente é bonita. Quer dizer, isso ocupa sua vida inteira. Não fazer nada. Eu sou bonita. Eu faço tudo bonito. Eu não como. Eu provo. Eu ando em círculos. Eu sobrevoo. Eu me privo. Eu passo fome. Como eu não como, não tenho muita energia. Na verdade é a comida que faz funcionar seu cérebro. Então todas essas pessoas bonitas se movem mais lentamente. Não é culpa delas. Elas não aguentam fazer muita coisa. Elas não tem muita imaginação. De novo: elas também não precisam muito. Elas são bonitas.

As pessoas engraçadas comem o que elas querem. Eu adorava comer. Você pode aproveitar a fundo. As pessoas engraçadas aproveitam tudo.

As pessoas bonitas só andam com gente bonita também. É mais ou menos isso. Um concurso de gente bonita. Sua vida inteira dedicada a ser a mais bonita.

Sinto saudades do meu nariz. Todos os dias eu o esfrego e sonho em dizer mentiras como o Pinóquio pra ver se ele cresce de novo. Eu tinha um encontro com um garoto que me achava bonita. Eu não sou realmente bonita. Ele entendeu isso como falsa modéstia. Eu não sou naturalmente bonita. Eu sou uma falsa bonita. Ele não entendeu e me beijou porque é isso que fazem os garotos quando eles não entendem alguma coisa e não querem ficar com cara de idiota. Quando ele me beijou, ele não encontrou nenhum obstáculo. Foi muito fácil. Eu nem tive a oportunidade de fazer uma piada. Foi triste porque normalmente a piada sobre meu nariz sempre fazia o garoto rir e isso relaxava a gente e o beijo era sempre muito melhor depois.

+ Normalmente, eu não publico textos deste tamanho. Normalmente, eu não publico textos de outras pessoas. Normalmente, eu não finjo que sou tradutora. Mas dessa vez eu achei que valia a pena abrir uma tripla exceção.
+ "Je suis une créature émotionelle", Eve Ensler. No original em inglês, "I'm an emotional creature". 
+ Edit: é impressionante como este texto me faz pensar neste post.

terça-feira, novembro 29, 2011

Touche pas

Esqueça Meia-noite em Paris. Para mim, é no fenômeno de bilheteria Intouchables que eu vi o melhor retrato de Paris desde que cheguei aqui.


Longe de ser um filme sobre a cidade, a história conta o encontro de um tetraplégico miliardário e um cuidador marginalizado. Acreditem, é uma comédia. Que tem, como pano de fundo, um repertório bem-sucedido das melhores caricaturas de anedotas e personagens da minha Paris, que vai do meu bairro à Barbès, do 13ème aos descolados da République.

Os espertos estacionados em duas filas na frente dos prédios burgueses do XVI. As faxineiras que começam a trabalhar quando todo mundo termina. O milionário e risível mercado de arte contemporânea. As famílias numerosas que se espremem nos HLM. O adolescente riquinho de cabelo no olho. Os Rolls-royce. O RER. Os engarrafamentos. Paris à noite. A Île de St Louis, a banlieue - e o fosso que existe entre os dois.

Não espere um filme sociológico, antropológico. Uma crítica diz que ele agrada por colocar em contato os dois mundos que coabitam em Paris numa rara situação que não seja de conflito - e é claro que é cinema, porque nunca se viu um tetraplégico tão feliz nem um marginalizado tão camarada. As piadas politicamente incorretas também receberam muitas críticas.

Eu ri. Muito. E tenho certeza de que vou rever Intouchables - mais que Amélie Poulain ou qualquer outro - quando tiver saudades da minha Paris.

quinta-feira, novembro 17, 2011

Vim só dar...

Eu já falei uma vez e repito: para mim, a maior invenção da humanidade é o HD externo.

Eu tinha um computador a corda, lento, que mal ligava de tão velho e sobrecarregado, e que quando ligava passava dez minutos tentando pegar no tranco até apagar do nada (justo quando você estava prestes a clicar em enviar). Eu quase morria de ódio dele, mas não tinha coragem de chutar e quebrar na parede porque ele tinha sido o meu primeiro computador, todas as primeiras colunas que eu escrevi na vida, uns textos do meu antigo blog, fotos de quando eu não tinha máquina digital e colecionava as fotografias que meus amigos faziam das festas estavam em algum lugar daquela memória sórdida que fazia questão de apagar, puf, quando eu ia acessar o que queria... 

Um dia, num exercício de muita paciência, entre mil boots indesejados, eu consegui salvar tudo o que existia ali num HD externo. E desde então, quando preciso de alguma coisa de um passado distante, eu abro o HD externo e sou automaticamente teletransportada para cinco, seis anos atrás.

Essa semana foi meu CV em português que me fez esbarrar numa pasta chamada incoming, que logo identifiquei se tratar da gaveta onde dormiam meus primeiros MP3 que baixei com aquele programa do fantasminha. Lá dentro, as músicas que estavam no telefone que eu tinha quando vim morar em Paris.

Uma coletânea do Pearl Jam que tem tudo o que uma pessoa precisa na vida. Um CD do Nat King Cole que rodava em espiral nas minhas primeiras idas e vindas de metrô. Mas, principalmente, e é aí que eu quero chegar, o CD Segundo, da Maria Rita. Todas aquelas músicas são a trilha sonora da minha chegada a Paris. A saudade das rodas de samba, o apelo me leva que eu quero ver meu pai, o vim só dar despedida. Eu ouvia aquilo no frio que eu achava inabitável e sentia um buraco no meu peito. Um buraco que falava de um pedaço meu que tinha ficado do outro lado do oceano.

Demorei anos (literalmente) pra ver que o pedaço que faltava nunca esteve longe. Que as pessoas permanecem mesmo longe dos olhos. Que o amor que a gente recebe nunca sai da gente. Aprendi tanto sobre distância, sobre independência, sobre amor, sobre presença. E virei quem eu sempre fui, mas não sabia.

Esse ano fui num show da Maria Rita aqui em Paris (coincidências da vida) e cantei essas músicas todas, num prenúncio desse reencontro. A última canção do concerto (incrível, num circo, com um monte de amigo querido) foi Encontros e Despedidas. E ouvir aquele bando de expat, a famosa "comunidade brasileira" de que a gente de classe média finge não fazer parte para não acabar confundido com as empregadas domésticas e os pedreiros que superam no braço o choque cultural de que a gente só sente as cócegas, aquelas pessoas todas cantando juntas a música que virou brega porque era música de novela, fazendo o mesmo apelo pelas notícias do mundo de lá, me colocou uma bola de lã na garganta que permanece até hoje quando eu penso.

É isso. Acho que eu sou filho de sol poente.

terça-feira, novembro 08, 2011

sábado, novembro 05, 2011

Istambeautiful


Era uma mistura de vontade de férias, já que a gente não viajou no verão, curiosidade louca despertada pelo livro do Mathias Énard e muita vontade de ver amigos queridos. Daí que passamos uma semana em Istambul.

Uma semana encantada com as paisagens dessa cidade e com a hospitalidade dos turcos. Uma semana de chás de maçã, de docinhos turcos deliciosos, de pôres-do-sol pintando silhuetas incríveis - e olha que o sol andava preguiçoso esses dias.


Confesso que achei a cidade mais ocidental do que eu esperava. Não é para menos: embarquei levando na cabeça as imagens fantásticas de um romance escrito no tempo do sultanato. O Topkapi, mais importante herança desse tempo, ao mesmo tempo me surpreendeu - com suas abóbodas impressionantes e seus jardins que convidam à liberdade - e me irritou profundamente. Os aposentos solenes são tão lindos, tão inspiradores, e o harém, onde ficavam confinadas as mulheres do sultão, é tão opressor, tão parecido com uma prisão, que me deu... nojo.


Essa sensação também me tocou dentro das mesquitas de oração, onde os homens podiam rezar lá no centro e as mulheres ficavam todas confinadas - e cobertas - no fundo do templo. Eu juro que tentei não enxergar com meus olhos ocidentais viciados e parciais, mas não consegui.


O que me consolou foi ver, na cidade e na vida real, uma realidade bem diferente. As mulheres na rua são totalmente livres, se vestem como bem entendem e não deu para perceber sinais de um machismo marcante fora da esfera religiosa. Além disso, o carinho das pessoas com as crianças é algo realmente comovente. Como disse o Beto, parece que todo dia é Cosme-Damião.

Em poucas linhas, copio aqui tudo o que aprendi com a Candi sobre o indispensável em Istambul:


- A praça de Sultanahmet, com Topkapi, a Mesquita Azul e o Aya Sofia.


- Grande Bazar: comprei um jogo de xadrez que está animando nossas noites aqui em casa. Desejei ardentemente tapetes, luminárias e pratos, mas meu orçamento não fazia jus aos meus desejos.

- Os docinhos na Karakoy Gulluoglu.

- A vista da cidade de Eyup (no café Pierre Loti) e em Uskudar (na frente do restaurante Filizler Koftecisi). Detalhe: quanto mais lindas as vistas, mais difícil de encontrar uma cerveja. As duas regiões são alcohol-free.


- Os passeios de barco pelo Bósforo e no Corno de Ouro. A Eyup vá de barco.


- Os museus. Palmas para o Istambul Modern e para a galeria Salt, na agitadíssima Istiklal Caddesi.

Minhas pequenas frustrações:


- Não ter visitado a Suleymanie Camii.

- Não ter tomado um banho turco. Mas tudo bem. É a desculpa para voltar um dia.

segunda-feira, outubro 24, 2011

Coisas de que vou sentir falta, parte II - A escola


- A escola dos meus filhos fica a cem metros da minha casa. E isso não é coincidência. É política pública.


- Eu não pago nada por ela. Ah, não, minto. Pago. Trezentos euros, o bimestre, pelos dois. E esse é o preço do almoço - se eles almoçassem em casa, eu não pagaria nada.


- O almoço na escola é composto de entrada, prato principal e sobremesa. Todos os dias. E o Pedro diz que ele prefere mil vezes a comida da escola do que a de casa (o que talvez seja um problema meu!).


- As aulas são de 8h30 às 16h30.


- Às quartas-feiras não tem aula. Muitos pais trabalham só quatro dias por semana e, na quarta, acompanham as crianças em atividades, como esportes, artes e música.


- Professoras dedicadas, super profissionais, carinhosas. A do ano passado diagnosticou uma otite crônica no João que nem eu nem o pediatra dele tínhamos percebido.


- Dois recreios por dia.


- Conteúdos que os meninos estão aprendendo agora, nas palavras deles: o corpo humano, a letra A (em cursiva, mamãe!), a letra D, os planetas, o ursinho que tem no Museu d'Orsay, os números, como faz para escrever um livro, o outono e as poesias.


- Eles estudam com crianças italianas, vietnamitas, armenianas, chinesas, tunisianas, argelinas, mexicanas, espanholas, portuguesas, alemãs, britânicas, congolesas, da Costa do Marfim e... francesas. De filhos de empresários a crianças que vivem em abrigos da assistência social.


- Meus filhos brincam de cozinha com as amiguinhas deles. E elas jogam futebol com eles.


Eu adoro a escola dos meus filhos, antes de tudo, porque ela é pública. Me emociona dar a  eles a oportunidade de conhecer o conceito da coisa pública de uma maneira tão bonita. E quando eu vejo uma coisas como uma lista de material escolar dividida por gênero, sinceramente, me dá muita certeza de que eu vou sentir muita falta dela.

sexta-feira, outubro 21, 2011

Coisas de que vou sentir falta, parte I


Você gosta de arte contemporânea? Eu acho que eu nem sabia direito o que era arte contemporânea antes de vir morar aqui. A culpa é um pouco de Paris, da enorme oferta de museus e galerias, mas também do meu reencontro com o desenho. Isso, de repente, passou a me interessar.

Este é o final de semana das feiras de arte contemporânea aqui em Paris. Na mais importante e famosa, Fiac, eu não passo nem na porta - porque ela é cara. Eu vejo a arte contemporânea como uma piada - e eu gosto de piadas - mas pagar trinta e seis euros para ver uma piada não tem muita graça, convenhamos.

Além disso, o espírito da Slick, que é uma feira de descoberta de talentos, me atrai mais. É mais novo, menos sério, mais inesperado. Mas mesmo lá, claro, a babaquice e o nonsense rolam soltos - porque se não for assim não é "arte".

Todas as matérias dos jornais sobre as feiras fazem brincadeirinhas com esse universo, dizendo que as perguntas mais importantes a se fazer são "o que quer dizer?" e "quanto custa?". Eu vou pras feiras com outro questionamento essencial: "como ele fez isso?". Essa pergunta abre portas na minha cabeça.

Esse fênix da foto maior, por exemplo, foi feito por uma moça chamada Lyndi Sales com pedaços de papel de publicidade chinesa cortados e amarrados com linha vermelha. É ainda mais lindo que na foto - e eu não tenho idéia de quanto custa (mas deve ser caro). 

Pés de mesa de PVC
Muro destruído

Cartuchos de arminha de chumbo
Cálculos feitos à mão (8-1=7-1=6, etc)

Será que uma parte dos três mil euros que custa a foto "Madona" será revertido para a adolescente grávida que serve de personagem?
Mil e duzentos euros. Sem comentários.
Lance Letscher, minha favorita da feira

De pertinho. O trabalho dela é todo de colagens.
Mas, sem dúvida alguma, grande parte da graça de uma feira de arte contemporânea é a oportunidade de observar de perto o comportamento de espécimes desta interessante fauna que elas atraem: os rycos. Gente, os estandes têm maquininha de cartão de crédito! Isso significa que tem gente que compra mesmo! É uma feira, oras!


Em vários estandes esbarrei com três amygas bem 16ème que faziam comentários do tipo: "que lindo [um trapo vermelho todo costurado, preço: 3 mil euros], vai combinar com seu sofá!".


Quando me deparei com essa obra - um burrico empalhado, com um galho coberto de ouro preso nas costas, pendendo da ponta dele uma pulseira hermès circundada de borboletas, que hipnotiza e faz o animal avançar - quase falei: "olha lá!, gente!, é você!". Mas depois, né?, achei melhor não.


 

quinta-feira, outubro 20, 2011

Eu quero passar com a minha dor


Vocês sabem, este blog vai acabar.


Eu vou embora de Paris e não vai fazer o menor sentido continuar escrevendo um blog chamado Le Croissant. Sempre odiei wannabes que esquecem as palavras na própria língua materna depois de vinte dias de férias em Orlando e eis que me metamorfoseei em um deles - já vai bastar aos meus amigos ter de aturar os "oh-la" que eu solto a cada cinco minutos, manter ad eternum um blog para nutrir esporadicamente meu amor por Paris seria um pouco demais.


Eu vou parar de falar de Paris um dia. Mas acontece que esse dia ainda não chegou. 


Ensaiei alguns posts de despedida, mas cada vez que eu abria a boca saía umas frases tão sofridas que eu fiquei com vergonha. A medida da dor, me sussurra o Paulo Mendes Campos cada vez que eu começo.


Ao mesmo tempo, me martela na cabeça que um dos maiores arrependimentos da minha vida foi nunca ter comemorado como devia o sucesso no concurso que mudou minha vida. A cada etapa que passava eu me dizia: melhor não cantar vitória. De alegria economizada em alegria economizada, fui nomeada com a sensação de que o tempo de comemorar tinha passado. E eu acho isso terrivelmente melancólico.


Eu vou embora de Paris, sabe? A fase de negar já passou. Já consigo encontrar lugares onde gostaria de estar em seguida e até ensaio gostar da ideia. Penso nisso o tempo todo, mas tenho vivido nas últimas semanas como se nada estivesse acontecendo - trabalhando, me trancando em casa para desenhar, fingindo ignorar que do outro lado da janela está... Paris.


Eu preciso me despedir direito. Já adianto, vai ser feio, vão e imodesto. Mas dá licença: eu vou sofrer.

segunda-feira, outubro 17, 2011

Sardas



- Hey! Quem foi o engraçadinho que fez um monte de bolinha marrom no meu desenho?
- Fui eu, mamãe!
- Pedro, quem mandou mexer no meu computador?
- Essa aí não é você?
- ...
- Eu só fiz as taches!