O coelho fazia muitas coisas e queria fazer sempre mais. Queria ter tempo de tomar café com as amigas, aprender a mexer no Illustrator, costurar, desenhar, escrever - mas vivia se arrumando trabalhos chatos e desimportantes, que não deixavam nenhum tempo livre para nada disso.
Pior: o pouco tempo que sobrava era ainda assombrado por questionamentos existenciais idiotas, do tipo trabalhamos pelo dinheiro ou por imposição social?, temos o direito de simplesmente não trabalhar?, e outras bobagens afins que, muito embora perturbem verdadeiramente a cabecinha do coelho em questão, são implacavelmente taxadas de pequeno-burguesas por outros personagens do livro perfeitamente inseridos no mundo capitalista.
Era uma vez um coelho que um dia se perguntou tantas bobagens, mas tantas, que se esqueceu porque corria. E ficou acordado até uma hora da manhã desenhando e escrevendo, como se não houvesse amanhã.





