Quarta-feira, Novembro 25, 2009

A agonia do coelho de Alice

Era uma vez um coelho que vivia atrasado, correndo ilogicamente contra o relógio. Vivia aflito tentando chegar a tempo de não deixar o outro esperando por ele: o chefe, o dentista, o amigo, a rainha.

O coelho fazia muitas coisas e queria fazer sempre mais. Queria ter tempo de tomar café com as amigas, aprender a mexer no Illustrator, costurar, desenhar, escrever - mas vivia se arrumando trabalhos chatos e desimportantes, que não deixavam nenhum tempo livre para nada disso.

Pior: o pouco tempo que sobrava era ainda assombrado por questionamentos existenciais idiotas, do tipo trabalhamos pelo dinheiro ou por imposição social?, temos o direito de simplesmente não trabalhar?, e outras bobagens afins que, muito embora perturbem verdadeiramente a cabecinha do coelho em questão, são implacavelmente taxadas de pequeno-burguesas por outros personagens do livro perfeitamente inseridos no mundo capitalista.

Era uma vez um coelho que um dia se perguntou tantas bobagens, mas tantas, que se esqueceu porque corria. E ficou acordado até uma hora da manhã desenhando e escrevendo, como se não houvesse amanhã.

Domingo, Novembro 22, 2009

Nós três

A adulta que eu sou elenca argumentos. Encontra dados, pesquisa, saca explicações científicas. Costura provas com uma prosódia convincente, uma entonação firme e uma certa ironia na voz. A ironia malvada envenena as relações, e quando estou irônica eu já sou quase adolescente.

A adolescente que eu era ri de deboche. De desprezo e de raiva. Sente o coração palpitar bem forte e tem vontade gritar: me devolva! Não me roube! Eu sou minha! A adolescente esmurra a porta e sente o sangue ferver e tem vontade de esganar. Ela é visceral e mata com arma branca ou com as unhas ou com os dentes.

A criança que eu fui chora. Pede colo e abraça a própria barriga. Soluça na cama fria, no escuro, procura o quente da coberta, pede proteção ao travesseiro.

Quando amanhece eu reúno todas as três, respiro fundo e sinto alívio ao me ver de frente no espelho. Deu trabalho, mas me construí. E daqui eu não saio mais. Daqui ninguém me tira.

Sexta-feira, Novembro 20, 2009

grrrrrrrr...

Terça-feira, Novembro 17, 2009

Ah, crescer...

No fundo, filho, eu te entendo.

Você faz uma confusão danada com essa história de crescer. Vira e mexe promete que vai fazer isso ou aquilo quando for pequeno, numa lógica tão paradoxal quanto verdadeira. Você ainda tem pela frente muito tempo pra ser pequeno, embora de vez em quando eu tente te convencer do contrário.

É muito bom ser gente grande, filho. Na verdade, eu achei bom ser criança, achei legal ser adolescente, achei ótimo ser jovem e continuo achando excelente ser adulta, principalmente depois que vocês chegaram. Tenho a impressão de que a vida não vai se cansar nunca de me divertir.

Só que... Só que sempre tem um só que.

E no meu caso, hoje, o só que fala de papéis, de trabalhos aborrecidos, de decisões difíceis de tomar, de compromissos assumidos sem convicção - de armadilhas que os adultos armam para eles mesmos, sem querer, sem perceber e, principalmente, sem saber porquê.

Amanhã vai mudar, filho, mas hoje eu estou achando que ser adulto é ser absolutamente livre pra ser absolutamente enquadrado. Pelo que você mesmo e a sociedade esperam de você.

Tem hora que eu também queria jogar minha linda cama vermelha no lixo e voltar pro meu bercinho.

Sexta-feira, Novembro 13, 2009

You should be glad

Diz o Figaro de hoje: segundo o site de encontros beautiful-people.com (me recuso a lincar), que só aceita gente bonita, os britânicos fazem parte das pessoas mais feias do planeta. Só doze por cento dos ingleses que tentaram entrar no site foram aceitos, enquanto a taxa de sucesso é de 65% para suecos e 76% para noruegueses.

O que faz uma gorda-na-infância diante desta revelação? Pensa em entrar no site, óbvio. Só pra ver se pode.

O ato ridículo é impedido por uma reflexão ponderada: o que eu quero com um site que gongaria Paul, John, George e Ringo? Certo, pelo Ringo eles teriam razão, mas isso não vem ao caso.

O que eu quero com um site que torce o nariz pros dentes encavaladinhos e sobrancelhas caídas do Hugh e abre as portas para gigantes loiros com o charme de uma porta blindada?

With a love like that, you know you should be glad, yea, yea, yea.

Terça-feira, Novembro 10, 2009

Metrô notebook

Dito isso, não digo mais nada.

Segunda-feira, Novembro 09, 2009

Questão de foco

A vida é mais ou menos a mesma, o que muda é o jeito que a gente olha pra ela.

Que em começo de namoro a gente também faz supermercado e sobe dois andares carregando peso. Faz tratamento de dente, assina papel chato, paga conta atrasada, reconhece firma em cartório, resolve pendengas com empregada, manda e-mails aborrecidos. E muito mais, só que nem nota.

O que acontece é que de vez em quando essas chatices cotidianas acham de sair da coadjuvância eterna a que deveriam estar condenadas para virar protagonistas da nossa história.

Daí você brinca com seu filho pensando no email chato, desenha planejando a reunião insuportável que terá daí a dois dias, almoça e janta as cinco filas que terá de enfrentar para dar entrada em um papel, se espreguiça no sábado de manhã em plena sala de espera do médico que nunca chega com menos de duas horas de atraso.

Não custa nada o curso que você decidiu fazer virar mais uma obrigação, os quilos que você quer emagrecer virarem obsessão, a terapia virar um jeito estúpido de gastar fortunas. Só muda o foco.