sexta-feira, setembro 24, 2010

Non, belle demoiselle

Je ne veux pas m’assoir.

O que queria mesmo era reformar seu olhar. Me veja. Me enxergue. Eu continuo aqui.

Debaixo da pele enrugada, sob meu gorro puído, atrás das lentes grossas dos meus óculos – este ainda sou eu.

Sou um cavalheiro, mademoiselle. Passei minha vida vestindo casacos, segurando portas, cedendo assentos.

Moças como você me respondiam com seus olhares galantes, envaidecidos, delicados flertes que fizeram de mim o homem que sou. Ou que era.

Antes de trazer esta bengala, minhas mãos davam segurança, proteção, presença – tudo o que uma mulher espera de um homem.

Há alguns anos – vinte?, trinta? – eu não veria compaixão nos seus olhos, mas paixão apenas. Pura e simples.

Você só quer ser gentil, eu sei – e agradeço. Mas não. Je ne veux pas m’assoir.

17 comentários:

Mirelle Siqueira disse...

Oi Carol! Sabia que eu ja ouvi alguns discursos parecidos quando ofereci meu lugar aos idosos no metrô ou bus? Mas nunca um tão galanteador como este. Bjo!

Caso me esqueçam disse...

hmmm... sempre leio, nunca comento, mas esse post foi muito bonito mesmo. nunca tinha visto por esse lado. os velhinhos franceses parecem ser tao seguros de si que eu sempre fico em duvida se ofereço ou nao o lugar. prefiro fazer contato visual e soltar um sorrisinho pra ver qual a receptvidade da criatura antes de insulta-la perguntando se ela precisa se sentar. nao eh facil.

Anônimo disse...

Linda cronica! revela sua grande sensibilidade. É complicada, a velhice.

Mel disse...

Lin-do! Adorei o post. Sou psicanalista e tenho dentre minhas pacientes uma senhora - linda - de 78 anos. Já acho o máximo alguém se dispor a se repensar nesta idade. Mas olha, tem dia que sou eu que gostaria de pagar-lhe a consulta, porque aprendo tanto...

Leandro Wirz disse...

Excelente! Texto sensível, bem construído e toca num assunto que merece atenção e sugere a reflexão. Muito bom mesmo. Beijo!

Amanda disse...

Amei tbm. Quarta-feira vou numa reunião de voluntarios para fazer companhia aos velhinhos. Isso é uma coisa que eu TENHO que fazer antes de ir embora de Paris.

Dante Accioly disse...

Cabra bom!

Anônimo disse...

Essa sensibilidade para com os velhinhos ja tinha se revelado quando vc escreveu o livro da vovo'. Ficou leve e poetico.E realista ao mesmo tempo...Nao falei que a gente precisa, as vezes, de uma corregedora?
Lindo texto, Carol

ricardo disse...

lindo !( De um homem de 52 anos que ainda cede assentos, abre portas, em pequenos flertes ... ai de mim )Beijo !

Anônimo disse...

Oi, Carol,

sugestão de musica fofa (e boa):

http://www.youtube.com/watch?v=eHeR50NQctE

Beijos.

Anônimo disse...

ha, I am going to test my thought, your post bring me some good ideas, it's really amazing, thanks.

- Norman

Priscila_Sodre disse...

Forte e Real!

Priscila_Sodre disse...

Forte e Real!

Priscila_Sodre disse...

Forte e Real!

Ana Chalub disse...

interessante seu ponto de vista, carol. sempre presenciei o inverso: o idoso está lá, em pé, num ônibus que dá mais solavancos que burro empacado que decide andar, e o adolescente sentadinho, na boa, fingindo que não é com ele. o idoso ainda olha pro moleque com uma cara feia, mas ele nem vê, pois mantém os olhos fechados enquanto finge que está dormindo. isso sempre me incomodou, porque acho que, no geral, os jovens não se veem amanhã. não percebem que passarão por isso também. que vão precisar se sentar no ônibus, com medo de suas pernas não muito firmes desabarem de vez. tomara que a situação descrita com você seja mais comum do que eu imagino. e que os idosos ainda tenham forças não só pra se manterem em pé, mas para serem gentis e galentes.
beijos!

Poupée Amélie™ disse...

Nossa, adorei! Sensível. Mágico.
Bisou.

Anônimo disse...

Conheço seu blog a algum tempo mas nunca havia comentado mas este post mostra o quanto vc é sensivel inteligente e escreve bem.
Parabéns.