sexta-feira, outubro 08, 2010

Blablablabla

A minha geração de mulheres é filha da geração de mulheres que aprendeu a falar.

As nossas mães foram as primeiras a retrucar o marido em mesa de bar, permitindo-se discordar carinhosamente das versões masculinamente exageradas. Na verdade, acho que elas foram as primeiras a estar na mesa de bar pura e simplesmente, sem precisar ser uma vanguardista revolucionária. Elas eram só jovens na década de 1970, as sortudas.

Como filhas dessas mulheres, tudo o que nós mais fizemos na vida foi falar. Por influência de tudo o que estourou em 1968 – feminismo, psicanálise, liberdades, etc – a gente cresceu aprendendo a, atenção ao termo técnico, verbalizar.

Resultado: nós somos as rainhas das DRs.

O que é ótimo, claro. Não consigo me imaginar sem exercer meu sacrossanto direito de discordância na mesa de bar. Discordar do marido na mesa de bar faz parte da minha essência – e do chefe, dos pais, das irmãs, do mundo. Viva a verbalização.

Mas o que me dei conta há muito pouco tempo é do enorme poder da comunicação não-verbal, tão negligenciada por essa geração cheia de palavras.

Ou você acha que a sua avó não mandava em casa? Não fazia o que ela bem entendia? Sempre mandou, claro. Só que indiretamente. Ela era a sutileza em pessoa. Tinha um olhar pra dizer isso, um pigarro pra dizer aquilo, um arrastar de chinelos pra sugerir que já era hora do seu avô desligar o rádio e ir pra cama.

E nós?, nós somos analfabetas de sinais. Somos tão cheias de palavras que não sabemos falar de outro jeito.

E nem estou falando de pigarros ou chinelos, não – Deus me livre. Estou falando de gestos.

Mudar um objeto de lugar, chegar mais cedo, ou mais tarde, comprar um presente sem motivo ou não comprar um presente quando se espera que se compre. Fazer uma foto, gravar uma fita, mandar um desenho por email.

Jamais para substituir nossas palavras, mas para somar-se a elas.

Que de DRs o mundo já está cheio.

12 comentários:

Amanda disse...

Ca pra nos, eu prefiro mil vezes a nossa nova tatica de convencimento. Deixemos os sinais para as vovos, que não podiam fazer melhor...

Bel Boucher disse...

Mas, Amanda, falar às vezes cansa... Fora que pode se transformar numa guerra dos sexos sem fim... ai, já cansei.

Marisa Muros disse...

Olha que a sabedoria das vovós...(eu não sou,(vovó) mas pela idade, poderia...opção dos filhos, que respeito!)
Quanto à medir as palavras, acho uma boa! Palavra demais, às vezes, atrapalha...tumultua...gestos e atitudes são bem interessantes!

Ps. Eu tb. gosto muito dos seus desenhos...Parabéns!

Carol Nogueira disse...

Mandita, sabia que eu sabia que você não ia concordar comigo? Eu também não concordaria comigo até bem pouco tempo! :o) Beijos pra todas.

Fábio Minghetti disse...

Falar demais cansa e desgasta muito. Lembrando do ditado dos tempos da vovó: "Quem fala demais dá bom dia a cavalo".

BJ

Amanda disse...

O que te fez mudar de ideia então, Carol? :)

O negocio não é falar demais, reclamar, se descabelar. O negocio é falar direito, com educação e argumentos. E para quem valha a pena falar, claro!

Leandro Wirz disse...

Ô, Carol, vc é a salvação das mulheres que, não raro, sofrem de incontinência verbal.
Se todas soubessem como podem ser eloquentes os silêncios...

Mariana Altoé disse...

Oi Carol! Estava com saudades.
Dá um beijo nesses meninos lindos.
Mari

Anônimo disse...

A maturidade faz isso com a gente!
Também não concordaria com você até bem pouco tempo.
Hoje sei o valor dos eloquentes silencios...

Alex disse...

Se pudesse somar, chamaria de eloquente linguagem da sutileza. Belo texto, bela percepção...

Ana Chalub disse...

carolzinha,
como gostei deste seu texto! muitas vezes, gestos simples e pequenos dizem tão mais que palavras... e como gostamos das palavras! acho que sentimos que estamos sendo sinceras e adultas quando falamos, quando discutimos algo. mas, tenho certeza de que muitas vezes as palavras não são mesmo necessárias. ou, como você disse, os gestos podem completá-las.
amei!
saudades!

Didi disse...

Ca,
Adoro suas percepções, análises, suas interpretações e deduções sobre o viver, o conviver, sobre as mudanças de geração pra geração.
À medida que vamos adquirindo maturidade vamos descobrindo novos mecanismos de defesa e de lidarmos com nós mesmas e aí descobrimos o valor do silêncio, dos gestos, dos sinais, das poucas palavras, do recolhimento, da introspecção, da quietude, da meditação. Chegar aos 60 é ter a certeza disso tudo, e nos descobrir mais livres para pensar, falar também, sentir, calar, mudar, ir e voltar, e tudo que achar que podemos e devemos, sem culpa, sem esperar aprovação. Nosso estágio probatório já passou...