quarta-feira, dezembro 14, 2011

Drawing goodbyes 3


Que atire a primeira pedra, não é mesmo?


Será que existe número favorito da operadora dela pra ligar de graça pro Brasil? Vou ter saudades disso.

quinta-feira, dezembro 08, 2011

Drawing goodbyes

É só o que tenho feito: ao invés de ganhar a rua, me tranco em casa desenhando despedidas. Transformando Paris em cenário e imortalizando em personagens a saudade que vou sentir da convivência intensa, cúmplice e valiosa com mulheres incríveis que eu tive a sorte de encontrar por aqui.

Mais do que amigas, elas se tornaram companheiras de viagem - não só pelos quatro cantos dessa cidade incrível, mas nessa aventura mais incrível ainda que é crescer, se conhecer, amadurecer. Sem elas essa experiência não teria sido como foi. Elas sabem de quem eu estou falando.

sábado, dezembro 03, 2011

A piada sobre meu nariz


Teerã, Irã

Eu era engraçada antes. Engraçada mesmo. Tudo o que eu dizia ou fazia era engraçado. Acho que você teria rido. E eu ia achar legal. Queria poder te provar como eu era engraçada antes, eu ia ficar ainda mais engraçada tentando. Eu sei que é difícil de acreditar quando você me vê agora. Eu sou tão bonita, né? Não sou bonita? As meninas bonitas não têm nada de especial. Elas se parecem com aquilo com o que todo mundo sonha, mas elas não se parecem com nada muito específico. Quando alguém descreve uma pessoa bonita, é mais ou menos assim: "Ah, essa menina, a Ashley, ela é tão bonita!". Mas quando a gente descreve meninas que não são tão bonitas, há sempre alguma coisa a mais a se dizer sobre elas, sobre a aparência delas. Ah, Maria é aquela com os cabelos esquisitos, ou Taina, as pernas delas são meio curtas mas ela têm seios maravilhosos.

Antes, quando eu era engraçada, eu parecia engraçada. Eu era como se algo imprevisível estivesse sempre a ponto de acontecer. Isso tinha a ver com meu nariz. Ele era grande, feio e engraçado. Meu nariz era engraçado. Você me encontrava, você encontrava meu nariz. Oi, bem-vindo ao meu nariz. Eu não tinha rosto. Só um nariz. Só um grande nariz ridículo e engraçado. Pode ser tão intenso um nariz. Quer dizer, você já parou realmente um tempo pra olhar o seu? Eu olhava o meu o tempo todo. Ele me impressionava. O que é exatamente um nariz? Até a palavra é engraçada. Nariz. O conceito do nariz.

Meu nariz deixava todo mundo à vontade. Ele soltava as línguas das pessoas. Um pouco como uma garantia de confiança. É complicado de explicar, mas meu nariz me dava todos os direitos. Ele me tornava audaciosa. Eu me dizia: já que você nunca vai ser uma delas, então seja você mesma. Eu era a palhaça da minha classe. Eles me chamavam de Gonzo. Como a marionete.

Meus parentes não são malvados. Eu sei que eles me amam. Eu sei que eles querem o melhor para mim. O que eles acreditam ser o melhor para mim. Eles acham que sabem. Por amor, meus pais planejaram, organizaram e finalmente conseguiram matar meu nariz. Assassiná-lo.

Aos meus 16 anos, eles pagaram um homem para tirar meu nariz. Eles contrataram um matador de aluguel para colocar meu pobre nariz no chão. O único problema é que meu nariz era apegado a mim.

Eu não tinha nem ideia do que me aguardava. Eles não paravam de me dizer que eu seria feliz, que tudo seria melhor e que eu os agradeceria porque toda a minha vida seria mais fácil. Eu pensava que eles iam me levar ao Paradise Change, que eles iam me levar para comer no meu restaurante chinês preferido. Ao invés disso, a gente chegou numa pequena clínica. Eu não entendia nada. Havia um doutor que, estranhamente, tinha um nariz grande também. Ele me disse que seria um procedimento realmente muito simples. Minha mãe tinha uma cara meio culpada, mas ela continuava a sorrir. Depois o doutor me sedou com medicamentos. Eu não me lembro de nada. Quando eu acordei, sentia uma náusea horrível e eles estavam todos estranhos andando em volta de mim, eu sabia que alguma coisa de grave tinha acontecido. Eu comecei a vomitar carne, osso e sangue. Meu nariz escorria para todo lado, martelado, reduzido em migalhas. Eu chorava e eu não sabia exatamente como chorar sem nariz. Meu pai pegou minha mão e disse: "você vai ser uma princesa agora" e eu respondi: "eu não quero ser uma princesa. Eu era feliz palhaça. Meu nariz me transbordava mas ele me dava uma história, um mistério. Ele era o que eu era. E agora não sobrou mais nada além dessa confusão no meio do meu rosto. Eu era a Mesopotâmia e agora eu não passo de um centro comercial".

Eu sei que é difícil de acreditar mas eu nunca quis ser bonita. Eu me sentia mal por todas essas meninas bonitas que a gente vê por todo canto. Elas não abrem a boca, nunca fazem nada de especial. Só... bonitas. Peixes num aquário. Nadando em círculos, observando. De vez em quando beliscam comidinha de peixe, mas só beliscar, hein?, porque bonitas e magras são sinônimos, a gente sabe bem. É um pouco esse o problema quando a gente é bonita. Quer dizer, isso ocupa sua vida inteira. Não fazer nada. Eu sou bonita. Eu faço tudo bonito. Eu não como. Eu provo. Eu ando em círculos. Eu sobrevoo. Eu me privo. Eu passo fome. Como eu não como, não tenho muita energia. Na verdade é a comida que faz funcionar seu cérebro. Então todas essas pessoas bonitas se movem mais lentamente. Não é culpa delas. Elas não aguentam fazer muita coisa. Elas não tem muita imaginação. De novo: elas também não precisam muito. Elas são bonitas.

As pessoas engraçadas comem o que elas querem. Eu adorava comer. Você pode aproveitar a fundo. As pessoas engraçadas aproveitam tudo.

As pessoas bonitas só andam com gente bonita também. É mais ou menos isso. Um concurso de gente bonita. Sua vida inteira dedicada a ser a mais bonita.

Sinto saudades do meu nariz. Todos os dias eu o esfrego e sonho em dizer mentiras como o Pinóquio pra ver se ele cresce de novo. Eu tinha um encontro com um garoto que me achava bonita. Eu não sou realmente bonita. Ele entendeu isso como falsa modéstia. Eu não sou naturalmente bonita. Eu sou uma falsa bonita. Ele não entendeu e me beijou porque é isso que fazem os garotos quando eles não entendem alguma coisa e não querem ficar com cara de idiota. Quando ele me beijou, ele não encontrou nenhum obstáculo. Foi muito fácil. Eu nem tive a oportunidade de fazer uma piada. Foi triste porque normalmente a piada sobre meu nariz sempre fazia o garoto rir e isso relaxava a gente e o beijo era sempre muito melhor depois.

+ Normalmente, eu não publico textos deste tamanho. Normalmente, eu não publico textos de outras pessoas. Normalmente, eu não finjo que sou tradutora. Mas dessa vez eu achei que valia a pena abrir uma tripla exceção.
+ "Je suis une créature émotionelle", Eve Ensler. No original em inglês, "I'm an emotional creature". 
+ Edit: é impressionante como este texto me faz pensar neste post.

terça-feira, novembro 29, 2011

Touche pas

Esqueça Meia-noite em Paris. Para mim, é no fenômeno de bilheteria Intouchables que eu vi o melhor retrato de Paris desde que cheguei aqui.


Longe de ser um filme sobre a cidade, a história conta o encontro de um tetraplégico miliardário e um cuidador marginalizado. Acreditem, é uma comédia. Que tem, como pano de fundo, um repertório bem-sucedido das melhores caricaturas de anedotas e personagens da minha Paris, que vai do meu bairro à Barbès, do 13ème aos descolados da République.

Os espertos estacionados em duas filas na frente dos prédios burgueses do XVI. As faxineiras que começam a trabalhar quando todo mundo termina. O milionário e risível mercado de arte contemporânea. As famílias numerosas que se espremem nos HLM. O adolescente riquinho de cabelo no olho. Os Rolls-royce. O RER. Os engarrafamentos. Paris à noite. A Île de St Louis, a banlieue - e o fosso que existe entre os dois.

Não espere um filme sociológico, antropológico. Uma crítica diz que ele agrada por colocar em contato os dois mundos que coabitam em Paris numa rara situação que não seja de conflito - e é claro que é cinema, porque nunca se viu um tetraplégico tão feliz nem um marginalizado tão camarada. As piadas politicamente incorretas também receberam muitas críticas.

Eu ri. Muito. E tenho certeza de que vou rever Intouchables - mais que Amélie Poulain ou qualquer outro - quando tiver saudades da minha Paris.

quinta-feira, novembro 17, 2011

Vim só dar...

Eu já falei uma vez e repito: para mim, a maior invenção da humanidade é o HD externo.

Eu tinha um computador a corda, lento, que mal ligava de tão velho e sobrecarregado, e que quando ligava passava dez minutos tentando pegar no tranco até apagar do nada (justo quando você estava prestes a clicar em enviar). Eu quase morria de ódio dele, mas não tinha coragem de chutar e quebrar na parede porque ele tinha sido o meu primeiro computador, todas as primeiras colunas que eu escrevi na vida, uns textos do meu antigo blog, fotos de quando eu não tinha máquina digital e colecionava as fotografias que meus amigos faziam das festas estavam em algum lugar daquela memória sórdida que fazia questão de apagar, puf, quando eu ia acessar o que queria... 

Um dia, num exercício de muita paciência, entre mil boots indesejados, eu consegui salvar tudo o que existia ali num HD externo. E desde então, quando preciso de alguma coisa de um passado distante, eu abro o HD externo e sou automaticamente teletransportada para cinco, seis anos atrás.

Essa semana foi meu CV em português que me fez esbarrar numa pasta chamada incoming, que logo identifiquei se tratar da gaveta onde dormiam meus primeiros MP3 que baixei com aquele programa do fantasminha. Lá dentro, as músicas que estavam no telefone que eu tinha quando vim morar em Paris.

Uma coletânea do Pearl Jam que tem tudo o que uma pessoa precisa na vida. Um CD do Nat King Cole que rodava em espiral nas minhas primeiras idas e vindas de metrô. Mas, principalmente, e é aí que eu quero chegar, o CD Segundo, da Maria Rita. Todas aquelas músicas são a trilha sonora da minha chegada a Paris. A saudade das rodas de samba, o apelo me leva que eu quero ver meu pai, o vim só dar despedida. Eu ouvia aquilo no frio que eu achava inabitável e sentia um buraco no meu peito. Um buraco que falava de um pedaço meu que tinha ficado do outro lado do oceano.

Demorei anos (literalmente) pra ver que o pedaço que faltava nunca esteve longe. Que as pessoas permanecem mesmo longe dos olhos. Que o amor que a gente recebe nunca sai da gente. Aprendi tanto sobre distância, sobre independência, sobre amor, sobre presença. E virei quem eu sempre fui, mas não sabia.

Esse ano fui num show da Maria Rita aqui em Paris (coincidências da vida) e cantei essas músicas todas, num prenúncio desse reencontro. A última canção do concerto (incrível, num circo, com um monte de amigo querido) foi Encontros e Despedidas. E ouvir aquele bando de expat, a famosa "comunidade brasileira" de que a gente de classe média finge não fazer parte para não acabar confundido com as empregadas domésticas e os pedreiros que superam no braço o choque cultural de que a gente só sente as cócegas, aquelas pessoas todas cantando juntas a música que virou brega porque era música de novela, fazendo o mesmo apelo pelas notícias do mundo de lá, me colocou uma bola de lã na garganta que permanece até hoje quando eu penso.

É isso. Acho que eu sou filho de sol poente.

terça-feira, novembro 08, 2011

sábado, novembro 05, 2011

Istambeautiful


Era uma mistura de vontade de férias, já que a gente não viajou no verão, curiosidade louca despertada pelo livro do Mathias Énard e muita vontade de ver amigos queridos. Daí que passamos uma semana em Istambul.

Uma semana encantada com as paisagens dessa cidade e com a hospitalidade dos turcos. Uma semana de chás de maçã, de docinhos turcos deliciosos, de pôres-do-sol pintando silhuetas incríveis - e olha que o sol andava preguiçoso esses dias.


Confesso que achei a cidade mais ocidental do que eu esperava. Não é para menos: embarquei levando na cabeça as imagens fantásticas de um romance escrito no tempo do sultanato. O Topkapi, mais importante herança desse tempo, ao mesmo tempo me surpreendeu - com suas abóbodas impressionantes e seus jardins que convidam à liberdade - e me irritou profundamente. Os aposentos solenes são tão lindos, tão inspiradores, e o harém, onde ficavam confinadas as mulheres do sultão, é tão opressor, tão parecido com uma prisão, que me deu... nojo.


Essa sensação também me tocou dentro das mesquitas de oração, onde os homens podiam rezar lá no centro e as mulheres ficavam todas confinadas - e cobertas - no fundo do templo. Eu juro que tentei não enxergar com meus olhos ocidentais viciados e parciais, mas não consegui.


O que me consolou foi ver, na cidade e na vida real, uma realidade bem diferente. As mulheres na rua são totalmente livres, se vestem como bem entendem e não deu para perceber sinais de um machismo marcante fora da esfera religiosa. Além disso, o carinho das pessoas com as crianças é algo realmente comovente. Como disse o Beto, parece que todo dia é Cosme-Damião.

Em poucas linhas, copio aqui tudo o que aprendi com a Candi sobre o indispensável em Istambul:


- A praça de Sultanahmet, com Topkapi, a Mesquita Azul e o Aya Sofia.


- Grande Bazar: comprei um jogo de xadrez que está animando nossas noites aqui em casa. Desejei ardentemente tapetes, luminárias e pratos, mas meu orçamento não fazia jus aos meus desejos.

- Os docinhos na Karakoy Gulluoglu.

- A vista da cidade de Eyup (no café Pierre Loti) e em Uskudar (na frente do restaurante Filizler Koftecisi). Detalhe: quanto mais lindas as vistas, mais difícil de encontrar uma cerveja. As duas regiões são alcohol-free.


- Os passeios de barco pelo Bósforo e no Corno de Ouro. A Eyup vá de barco.


- Os museus. Palmas para o Istambul Modern e para a galeria Salt, na agitadíssima Istiklal Caddesi.

Minhas pequenas frustrações:


- Não ter visitado a Suleymanie Camii.

- Não ter tomado um banho turco. Mas tudo bem. É a desculpa para voltar um dia.

segunda-feira, outubro 24, 2011

Coisas de que vou sentir falta, parte II - A escola


- A escola dos meus filhos fica a cem metros da minha casa. E isso não é coincidência. É política pública.


- Eu não pago nada por ela. Ah, não, minto. Pago. Trezentos euros, o bimestre, pelos dois. E esse é o preço do almoço - se eles almoçassem em casa, eu não pagaria nada.


- O almoço na escola é composto de entrada, prato principal e sobremesa. Todos os dias. E o Pedro diz que ele prefere mil vezes a comida da escola do que a de casa (o que talvez seja um problema meu!).


- As aulas são de 8h30 às 16h30.


- Às quartas-feiras não tem aula. Muitos pais trabalham só quatro dias por semana e, na quarta, acompanham as crianças em atividades, como esportes, artes e música.


- Professoras dedicadas, super profissionais, carinhosas. A do ano passado diagnosticou uma otite crônica no João que nem eu nem o pediatra dele tínhamos percebido.


- Dois recreios por dia.


- Conteúdos que os meninos estão aprendendo agora, nas palavras deles: o corpo humano, a letra A (em cursiva, mamãe!), a letra D, os planetas, o ursinho que tem no Museu d'Orsay, os números, como faz para escrever um livro, o outono e as poesias.


- Eles estudam com crianças italianas, vietnamitas, armenianas, chinesas, tunisianas, argelinas, mexicanas, espanholas, portuguesas, alemãs, britânicas, congolesas, da Costa do Marfim e... francesas. De filhos de empresários a crianças que vivem em abrigos da assistência social.


- Meus filhos brincam de cozinha com as amiguinhas deles. E elas jogam futebol com eles.


Eu adoro a escola dos meus filhos, antes de tudo, porque ela é pública. Me emociona dar a  eles a oportunidade de conhecer o conceito da coisa pública de uma maneira tão bonita. E quando eu vejo uma coisas como uma lista de material escolar dividida por gênero, sinceramente, me dá muita certeza de que eu vou sentir muita falta dela.

sexta-feira, outubro 21, 2011

Coisas de que vou sentir falta, parte I


Você gosta de arte contemporânea? Eu acho que eu nem sabia direito o que era arte contemporânea antes de vir morar aqui. A culpa é um pouco de Paris, da enorme oferta de museus e galerias, mas também do meu reencontro com o desenho. Isso, de repente, passou a me interessar.

Este é o final de semana das feiras de arte contemporânea aqui em Paris. Na mais importante e famosa, Fiac, eu não passo nem na porta - porque ela é cara. Eu vejo a arte contemporânea como uma piada - e eu gosto de piadas - mas pagar trinta e seis euros para ver uma piada não tem muita graça, convenhamos.

Além disso, o espírito da Slick, que é uma feira de descoberta de talentos, me atrai mais. É mais novo, menos sério, mais inesperado. Mas mesmo lá, claro, a babaquice e o nonsense rolam soltos - porque se não for assim não é "arte".

Todas as matérias dos jornais sobre as feiras fazem brincadeirinhas com esse universo, dizendo que as perguntas mais importantes a se fazer são "o que quer dizer?" e "quanto custa?". Eu vou pras feiras com outro questionamento essencial: "como ele fez isso?". Essa pergunta abre portas na minha cabeça.

Esse fênix da foto maior, por exemplo, foi feito por uma moça chamada Lyndi Sales com pedaços de papel de publicidade chinesa cortados e amarrados com linha vermelha. É ainda mais lindo que na foto - e eu não tenho idéia de quanto custa (mas deve ser caro). 

Pés de mesa de PVC
Muro destruído

Cartuchos de arminha de chumbo
Cálculos feitos à mão (8-1=7-1=6, etc)

Será que uma parte dos três mil euros que custa a foto "Madona" será revertido para a adolescente grávida que serve de personagem?
Mil e duzentos euros. Sem comentários.
Lance Letscher, minha favorita da feira

De pertinho. O trabalho dela é todo de colagens.
Mas, sem dúvida alguma, grande parte da graça de uma feira de arte contemporânea é a oportunidade de observar de perto o comportamento de espécimes desta interessante fauna que elas atraem: os rycos. Gente, os estandes têm maquininha de cartão de crédito! Isso significa que tem gente que compra mesmo! É uma feira, oras!


Em vários estandes esbarrei com três amygas bem 16ème que faziam comentários do tipo: "que lindo [um trapo vermelho todo costurado, preço: 3 mil euros], vai combinar com seu sofá!".


Quando me deparei com essa obra - um burrico empalhado, com um galho coberto de ouro preso nas costas, pendendo da ponta dele uma pulseira hermès circundada de borboletas, que hipnotiza e faz o animal avançar - quase falei: "olha lá!, gente!, é você!". Mas depois, né?, achei melhor não.


 

quinta-feira, outubro 20, 2011

Eu quero passar com a minha dor


Vocês sabem, este blog vai acabar.


Eu vou embora de Paris e não vai fazer o menor sentido continuar escrevendo um blog chamado Le Croissant. Sempre odiei wannabes que esquecem as palavras na própria língua materna depois de vinte dias de férias em Orlando e eis que me metamorfoseei em um deles - já vai bastar aos meus amigos ter de aturar os "oh-la" que eu solto a cada cinco minutos, manter ad eternum um blog para nutrir esporadicamente meu amor por Paris seria um pouco demais.


Eu vou parar de falar de Paris um dia. Mas acontece que esse dia ainda não chegou. 


Ensaiei alguns posts de despedida, mas cada vez que eu abria a boca saía umas frases tão sofridas que eu fiquei com vergonha. A medida da dor, me sussurra o Paulo Mendes Campos cada vez que eu começo.


Ao mesmo tempo, me martela na cabeça que um dos maiores arrependimentos da minha vida foi nunca ter comemorado como devia o sucesso no concurso que mudou minha vida. A cada etapa que passava eu me dizia: melhor não cantar vitória. De alegria economizada em alegria economizada, fui nomeada com a sensação de que o tempo de comemorar tinha passado. E eu acho isso terrivelmente melancólico.


Eu vou embora de Paris, sabe? A fase de negar já passou. Já consigo encontrar lugares onde gostaria de estar em seguida e até ensaio gostar da ideia. Penso nisso o tempo todo, mas tenho vivido nas últimas semanas como se nada estivesse acontecendo - trabalhando, me trancando em casa para desenhar, fingindo ignorar que do outro lado da janela está... Paris.


Eu preciso me despedir direito. Já adianto, vai ser feio, vão e imodesto. Mas dá licença: eu vou sofrer.

segunda-feira, outubro 17, 2011

Sardas



- Hey! Quem foi o engraçadinho que fez um monte de bolinha marrom no meu desenho?
- Fui eu, mamãe!
- Pedro, quem mandou mexer no meu computador?
- Essa aí não é você?
- ...
- Eu só fiz as taches!

quinta-feira, outubro 13, 2011

De homens e de livros


Eles podiam estar roubando. Eles podiam estar dormindo. Eles podiam estar comprando. Jogando video-game. Namorando. Perdendo tempo na frente do computador. Eles podiam estar enchendo a cara. Eles podiam estar pendurados no telefone. Podiam estar vendo alguma porcaria muito ruim na televisão. Mas não.


Toda vez que eu entro numa biblioteca em Paris, eu renovo a minha esperança na humanidade. Qualquer que seja o dia da semana, o horário ou a biblioteca, há sempre centenas de pessoas lendo.


Daí ontem eu me deparei com isso e lembrei do quadro do Jô: Madalena, você não quer que eu volte!

quinta-feira, setembro 29, 2011

O apito



O Pedro, ele pede.

Numa banca de revista, ele pede revista, numa livraria, um livro, na loja de brinquedos, um brinquedo, na revenda de carros na esquina de casa, ele pede uma Ferrari.

Ele pede, simplesmente.

Quando dá, eu dou. Mas tento não dar sempre, porque acho que tanta pedição está pedindo uma explicação: que uma coisa é gostar, admirar e outra coisa é querer.

Confusão normal - na verdade, a gente adulto às vezes esquece a diferença e entulha o armário, a vida sentimental e o tempo livre de tralha desnecessária.

Então claro que não toda vez, que eu não sou sádica, mas pelo aprendizado gosto de convidar o Pedro a pensar no quanto ele realmente quer cada coisa. E a saborear o presente enriquecido do gostinho de cada dia de espera. Das pequenas e das grandes coisas.

E nada me emociona mais do que ver a boca cheia com que ele prova os pequenos prazeres, transformados em grandes pela vontade cultivada.

Um apito. Noventa centavos.

Mas, espera, não era um apito qualquer, não senhor. Um apito prateado. Igual ao do policial.

Que virou a atração do parque, perturbou as jovens mamães e seus bebês, foi o terror de todos os motoqueiros do caminho, passou de boca em boca fazendo um pot pourri literal de todas as bactérias do bairro. 

Quem se importa? Depois de uma semana sonhando com ele, o Pedro ganhou um apito. Prateado, ainda por cima.

terça-feira, setembro 20, 2011

DIY for dummies


Eu sou uma pessoa prática, o que é um excelente jeito de dizer que eu sou preguiçosa sem ficar feio. Pode colocar assim também: eu gosto da coisas simples. Materiais brutos. 


In the matter of facts, não importa o quanto eu ame a ideia que eu tive, ela só verá a luz do dia se ela for simplíssima a realizar.


Essa semana rolou uma arrastão criativo aqui em casa que resultou em um móvel, um quadro em 3D, uma luminária e um bolo decorado que são a prova viva da minha teoria da simplicidade extrema a serviço da criatividade.


Primeiro, o móvel de organização para materiais artísticos ultra moderno e dentro das tendências (madeira clara, material de recuperação, tudo muito cosy) da foto acima que você mesmo pode fazer em casa seguindo etapas muito simples:


1. Vá ao Carrefour na semana dos vinhos.
2. Negocie com o tiozinho responsável para que ele te doe três caixas de madeira vazias (parte mais delicada do processo).
3. Volte para casa.
4. Coloque uma em cima da outra.
5. Voilà!


Agora com vocês... o DIY do bolo confeitado do batman - guloseima que fará de você a mamãe mais talentosa das redondezas.




1. Compre um bolo pronto do Carrefour (ok, você pode realmente fazer um bolo, mas eu avisei: sou prática).
2. Asse de acordo com as instruções da embalagem.
3. Imprima o símbolo do batman.
4. Recorte o símbolo, deixando apenas os contornos - fabricando assim um estêncil.
5. Coloque seu estêncil sobre o bolo. 
6. Polvilhe açúcar de confeiteiro.
7. Retire o estêncil com cuidado para não arruinar tudo.
8. Voilà!


Eu poderia ter feito um bolo assim (modo de dizer, claro), mas o método DIY for dummies tem várias vantagens: as crianças podem participar, não leva glacê (que é ruim e feio) e... demora dois minutos para ser feito!


E você? Qual seu DIY favorito? 

domingo, setembro 18, 2011

De bici e de salto



Vou logo de cara te acalmar: o que você acha que é o maior empecilho para se andar de bicicleta em Paris é, na verdade, o grande facilitador.

Sim, você anda no meio do trânsito. Em muitos pontos há ciclovia mas, mesmo aí, poucos são os lugares em que a ciclovia é completamente separada dos carros. Daí você tem que andar assim no meio dos engarrafamentos, entre um carro e outro. Acontece que isso é ótimo.

Porque nesses lugares que tem muito carro, o trânsito é lento. E aí, sabe o que acontece? O motorista te vê!

E ao contrário do motorista brasileiro, o motorista francês é educado ao volante. Quando há uma fila de carros e tem alguém tentando cortar lá na frente, o cara normalmente... deixa passar! É incrível! Ele pensa: "olha, essa pessoa precisa passar senão ela perde a entrada!" e não "olha, um babaca tentando furar a fila!". Incrível, né? Pois é assim que funciona. Mas voltando às bicicletas.

Meu maior encorajador para andar de bicicleta em Paris reside justamente no fato de que eu dirijo aqui. E inúmeras vezes eu reduzi muito a velocidade porque havia uma bicicleta na minha frente. Esperei para que o ciclista (às vezes tão desajeitado quanto eu) passasse tranquilamente.

Logo, como ciclista medrosa e ocasional que sou, aí vão minhas dicas newbies:

- Tenha em mente que o motorista está te vendo. Faça sinal com a mão para indicar se vai para cá ou para lá. Sempre que possível, mostre ostensivamente sua intenção, tomando corajosamente  o rumo no meio da rua quando não está vindo carro. Claro que eu não me responsabilizo se alguém morrer depois de ler esse post (mas por favor não morram, senão eu vou ficar muito mal).

- Paris é uma descida no sentido Norte-Sul. Um trajeto Montmartre-Champs Elysées (ou mesmo até o Quartier Latin) é moleza. Já o contrário...

- Você tem um Iphone com chip francês? Baixe o aplicativo da Velib'. Ele é a resposta para o principal problema do sistema: não encontrar vaga para estacionar sua bicicleta nos pontos turísticos depois do passeio. O aplicativo te mostra no mapa todos os estacionamentos de bicicleta, quantas bicis livres e quantas vagas cada um possui em tempo real. Eficiência.

- Se você não tem esse luxo tecnológico, em cada totem da velib' tem um mapa das redondezas que mostra os pontos de estacionamento mais próximo. E essa dica quem me deu foi essa velibista experimentada que vocês já conhecem.

- A polêmica do tempo de uso.  A política de tarifação é a seguinte: você paga 1,70 euros por dia ou 8 euros por sete dias de adesão e nos dois casos a primeira hora é gratuita (veja aqui quanto custa o tempo suplementar). Alguns parisienses usam a bicicleta para trajetos curtos - e quando fazem trajetos longos, trocam a bicicleta a cada meia hora. As duas coisas são válidas, depende se sua urgência maior é grana ou vontade de passear sem pensar em nada.

- Dito isso, parece irrelevante, mas lá vai: não deixe sua velib' estacionada fora dos totens. Se for parar num ponto qualquer, encontre um totem e devolva a bicicleta. Vélo parada é taxímetro rodando.

- Last but not least: em Paris você vai aprender que andar de bici é uma excelente maneira de desfilar seus outfits moderninhos. (A dica é podre, eu sei, mas já admiti que estou num momento futilidade à toda prova). Aqui bicicleta não é malhação, é meio de transporte. Então se arrume pro que vai fazer - jantar, ver um espetáculo, ir a uma exposição - não pra andar de bicicleta. Mesmo os saltos são bem-vindos.

sábado, setembro 17, 2011

Surpreenda-me


Paris nunca deixou de me impressionar. Não ia ser agora, prestes a ir embora, curtindo cada minuto, procurando detalhes. Esbarro em fofuras diariamente - meus olhos e ouvidos convidam: "venha, surpreenda-me".
Eu estava perdida quando esbarrei nessa rua do 12ème arrondissement, de nome Crémieux, que é um sobrenome, mas que me faz pensar em cremoso, em creme de manteiga, sobremesa de vó.
Quem diria que uma cidade como Paris, de boulevares e avenues Montaignes, pode guardar uma ruazinha como essa? Uma minúscula rua de música de criança? Ah, se fosse minha...
As casas são todas coloridinhas, algumas têm com pinturas decorativas na fachada - adivinho que é obra de algum morador artista. No final da tarde, quando me perdi por ali, muitas portas estavam abertas, como se estivéssemos em uma cidadezinha do interior.
Ah, Paris... 





terça-feira, setembro 13, 2011

Ich velib' dich



Muito prazer, meu nome é Criada Com Vó. E meu sobrenome é Em Apartamento.

Morro de medo de andar de bicicleta. Penso que vou morrer a cada esquina. Então não me venha com essa desculpa. Eu também tenho medo. E vou.

Resolvi admitir isso quando vi que não estava sozinha: quase todos os amigos que eu convido para andar de velib', acabam alegando a mesma coisa. Ou que estão destreinados, que é difícil alugar, que estão com preguiça.

Pois vou logo avisando: vir a Paris e não fazer um passeio de bicicleta é mil vezes mais grave do que não subir na Torre Eiffel.

Não sei se é a adrenalina, a endorfina, ou a mistura explosiva disso tudo com o monóxido de carbono. Andar de vélo em Paris está entre as coisas mais legais do mundo.

Tem gente que é tão chique que tem um apartamento de férias no Rio. Tem gente que é tão bacana que tem um guarda-roupa alternativo na cidade de campo. Você, meu bem, é um luxo: você tem uma bicicleta te esperando em Paris! Já pensou?

Alguém aí quer um guia com itinerários e dicas? Ça vous dit?