segunda-feira, abril 14, 2008

Medo ou machismo

Digo isso porque há um movimento na França pela ampliação do direito à maternidade assistida. Aqui, a barriga de aluguel é proibida, o banco de sêmen também. Essa francesa de 40 anos conta que a geração dela está pegando o trem rumo à Bélgica para engravidar por lá. De repente elas se tocaram que queriam ser mães, mas não tinham um candidato a pai disponível no momento. A solução: os bebês Thalys (que é como chama o trem rápido Paris-Bruxelas).

Por que será que eu nunca ouvi essa brilhante idéia antes? Entre as solteiras que eu conheço, a maioria não quer nem ouvir falar em filho, mas outras tantas queriam muito ter um neném. Queriam, no imperfeito, porque ainda não encontraram o pai perfeito. Elas continuam procurando – e, verdade seja dita, se divertem muito nessa procura. Mas enquanto isso, o tempo passa.

Por que será que eu nunca ouvi uma brasileira (ainda que independente, ainda que bem-sucedida) falar em ter filho sozinha? Olha que no Brasil o procedimento não tem nada de ilegal. Sabe? Às vezes eu acho a gente tão mulherzinha.

22 comentários:

Felipe Campbell disse...

Eu já conversei com você sobre isso e acho simplesmente deplorável a idéia que se tem de ter um filho dissociada da pessoa que será o pai, o amor da vida da pessoa. Enquanto puderem e tiverem a chance de ter filhos com as pessoas que amam, acho que isso deve ser buscado, sem neuras de relógio biológico, gravidez de risco, etc.

Eu acho muito triste mulher que, quando chega aos 28, 29 ou 30 e poucos, engravida "porque quer ter um filho" depois de namorar 3 meses. E acha isso normal. Você vê que a mulher nem é apaixonada - pelo contrário, as vezes tá até "cagando" pro cara - mas quer mesmo é "ter um filho", "ser mãe".

Sinceramente, eu ainda sou poliano e acho que o filho é o fruto final de uma relação amorosa muito bonita em que as duas partes decidiram que querem ser "pais" porque se amam e vêem um futuro juntas.

Beijocas

Dante Accioly disse...

Minha opinião sincera? Filho não é um brinquedo. Não é uma barbie. Não é um bob. Filho não é um bibelô ou um troféu que se deva exibir como sinal de independência. Filho não tem a "função social" de servir como a satisfação de "um capricho" de adultos bem-sucedidos. Para ter alguém em quem dar cafuné no final do dia ou receber demonstrações de devoção incondicional, existem os animais de estimação. Filho merece ter mãe, assim como merece ter pai. Beijo nos seus. :)

Carol Nogueira disse...

Os homens ficaram brabos! E com razão, talvez. Vocês querem ser pais, e é graças a homens como vocês que mulherzinhas sortudas como eu tiveram a sorte de ter o pacote completo. Sorte nossa.
Mas não dá pra desprezar o sentimento da mulher que quer um filho - não para satisfazer o grito da sociedade, nem para ter um boneco, mas para ter um filho: para amar incondicionalmente, para cuidar desmesuradamente, para ensinar o pouco que sabe e reaprender um monte de coisas que a gente esqueceu quando virou adulto. Eu sempre quis ser mãe. Desde que eu era criança. Hoje, eu me sinto super realizada, e super sortuda pela família que eu tenho. E é por isso que eu penso nas mulheres que não encontraram "o cara". Reduzir a vontade de maternidade a uma expressão babaca como "relógio biológico" é no mínimo uma injustiça. Se vocês dois têm coração, saibam que elas também. Beijos.

Goutas disse...

Mulher tem todo o direito de enveredar pela produção independente. Afinal, o problema é dela. O foda é justamente o que o Bóris falou: mulheres que namoraram um cara três meses só para arranjar uma barriga.

Alberto disse...

Creio que família não pode ser tomada como "base" simplesmente por ser família. Pai + mãe = Filho feliz e amado é uma conta que não fecha. Pai + mãe = Filho. Ser feliz e amado vem de outra condição. Então, penso que se uma mulher ou um homem não encontram - ou não querem encontrar - um par com quem possam ter um filho, nada os impede - ou nada os deveria impedir - de buscar isso de forma isolada, seja dessa forma seja por adoção. O amor devotado à criança, se houver amor, será imenso do mesmo jeito. Mas, se não houver amor, não é pelo fato da "produção independente". As "famílias monoparentais" são, aliás, uma realidade cada vez maior. Quem não conhece pais ou mães solteiros? Em alguns casos, a ausência do pai ou da mãe é até melhor do que a falsa presença, que só traz prejuízos à criança. Amor não tem receita, não vem, necessariamente, dessa falsa idéia de família. Se viesse, estaríamos salvos da casos horrorosos como o família Nardoni.

ana luiza disse...

ei prima!
gostei muito do seu post, vi sua mami e sua irmazinha esses dias aqui em sp, e fiquei pensando q tinha um tempo q nao passava por aqui.
Esses dias vim conversando com a Mari, e percebi que realmente, somos fruto do meio, ela não tá lá nem 1 ano direito e já começou a pensar como uma alemã. rs! E você, pelo que percebo, está nas influências das questões feministas por ai, certo?
Quando morei na Alemanha não morri de medo do machismo, morri de medo do feminismo. Fiquei chocada. Era tudo distorcido, sai daquele ambiente mineiro machista até a alma, para as mulheres "machistas" que não aceitavam nem ajuda de outra mulher quando tinham 6 sacolas e 2 filhos pra carregar ao abrir a porta. Era uma questão de honra que eu conseguisse levar todos os dias meus 2 baldinhos de madeira e tijolos de carvão 4 andares a cima sem sofrimento. Era questão de honra eu conseguir carregar todas as minhas malas depois de sair do hospital em munique me recuperando de 15 dias internada até a minha casa em Berlin. Era questão de honra não depender de ninguém, muito menos de um homem. E a verdade é que todo esse feminismo gerou milhares de mulheres e homens solitários. E ainda, filhos solitários.
Não sou contra as mulheres que querem ter uma produção independente, de forma alguma, existem tantas forma de amar nessa vida, que eu, como não mãe, e ainda filha, não posso julgar ninguém nem entrar no mérito dessa discursão. Mas gostaria de deixar meu pensamento a respeito disso. Na França, em outros países, a mulher que decidir ter um filho sozinha terá respaldo do governo, e no brasil, sinceramente, que mulher dará conta de trabalhar e ter filho sozinha, é algo muito diferente, e difícil. Não estou justificando a falta de vontade de uma mulher querer ter filhos independente aqui ou ai, mas sim que somos, fruto do meio. Seja pela influência do feminismo europeu ou pelo machismo brasileiro. Admiro aqueles que conseguem vencer essa barreira e tomar suas decisões pelos seus sentimentos mais genuínos, como o amor e o sonho da maternidade.

ana luiza disse...

opsss discussão!

Felipe Campbell disse...

É claro que tem muitas famílias em que os pais são solteiros, mas, na boa, aposto que, quando casaram e tiveram filhos, muitas (ou a maioria, espero) dessas famílias que agora não vivem mais juntas apostavam e acreditavam na unidade familiar. Achavam que viveriam juntas para sempre. Separaram-se depois, porque as coisas nem sempre (ou quase nunca) dão certo, fogem de como pensamos.

O que eu acho deplorável ´´e você, de cara, já pensar em ter filho porque "ser mãe" ou 'ser pai" é um barato e pronto. E aí vai brincar de casinha e, na hora em que o partner encher o saco, toca ele pra fora e vai viver sua vida de mae ou pai moderninho e independente. Acho que a palhaçada está na premeditação, na idéia egoísta de querer ter um filho que, como bem disse o Dante, não é brinquedo nem boneco.

Eu sou a favor de tentar, de buscar o ideal. Mesmo que você separe depois e os filhos tenham pais separados. Mas eu vou, se puder (lá em casa ninguém conseguiu e todo mundo teve filho sem querer, inclusive meu pai), tentar seguir o "roteiro romântico de construção familiar com pai, mãe, filho, amor e carinho pra todo mundo" que me foi apresentado no terceiro jardim, quando eu estudava na Escola Maternal e Jardim de Infância Branca de Neve.

Beijos à mamãe, abs ao papai e aos demais.

Anônimo disse...

Carol, acho você uma gracinha (apesar de não lhe conhecer bem) e adoro ler seus posts. Mas, eu tenho de discordar desse completamente. Não do fato, claro. Mas, do enfoque dado. Acho que você teve uma visão bastante simplista dessa maternidade independente e tudo que a envolve. Considere que você é mais que uma sortuda: vc, além do pacote completo, pode se dar ao luxo de tirar uma licença de trabalho e se dedicar mais aos seus filhos sem que isso signifique prejuízo a sua carreira. Nem todas podem fazer isso e a situação econômica do Brasil muitas vezes dificulta que alguém tenha coragem de peitar uma “produção independente”, que, no final, não se trata apenas de ter dinheiro, mas também tempo para dedicar a esse projeto. Aí entra um pouco o que a Ana Luiza disse. Não acho que isso desmereça as mulherzinhas. E mais, acho que tem mais gente fazendo isso do que se imagina, talvez suas conhecidas e amigas não tenham chegado à idade em que desistir do pacote completo e procurar alternativas para realizar o sonho da maternidade é a única opção. Eu conheço duas. Talvez aqui no Brasil isso possa ser feito de maneira mais discreta já que não há necessidade de pegar o trem.
Mas, se acontece ou não, não acho que seja o caso de admirar ou de desmerecer aquelas que não desistiram da família feliz. Na verdade, essa onda de maternidade independente é consequencia de uma coisa que é um bocado triste: a incapacidade das pessoas de se relacionarem, o alto nível de exigência sobre o outro, a intolerância aos pequenos defeitos do outro, o individualismo das pessoas. Concordo com o post da Ana Luiza que fala que o feminismo exagerado gerou pessoas solitárias. Não nego que o feminismo teve grandes conquistas. Mas, houve um exagero e considerar normal ou até mesmo admirar a “dispensabilidade” de um companheiro para gerar um filho, sob o argumento de ser uma mulher independente, é um pouco perigoso. Raquel

Carol Nogueira disse...

Tô adooooooorando essa polêmica! O que eu queria deixar claro é que não estou aqui advogando em favor das produções independentes em qualquer caso. 1) não estou dizendo que é fácil ser mãe (haha, seria até piada EU dizer isso), 2) não quero dizer que a produção independente seja MELHOR do que uma família (de novo, seria até piada). É óbvio que o ideal é construir uma família - e nisso eu concordo com a Raquel, talvez a dificuldade de se conseguir o "pacote completo" seja um pouco culpa dessa nossa geração tão cheia de sonhos irreais sobre a convivência perfeita. Fê, o seu conceito de uma família, na boa, confirma um pouco esse conceito... Não desmereço em nada todas as outras opções de vida que existem: como falei de início, conheço muito mais mulher de 30 que não quer nem saber de filho do que outras que, como eu, sempre sonharam com a maternidade. O problema é que, quando o projeto familiar dá errado para estas últimas, elas podem ficar amargas, arrepiando frio a cada notícia de gravidez no nosso grupo de amigas. Estou chamando estas mulheres à coragem, que na minha opinião é melhor do que a frustração de uma vida - só isso.
Quel, e as suas amigas que partiram pra isso se arrependem do passo que deram?

Carol Nogueira disse...

Ei, e cadê as mulheres solteiras? Queremos ouvir vocês!

Natália Ribeiro disse...
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Natália Ribeiro disse...
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Natália Ribeiro disse...
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Natália Ribeiro disse...

Olá...
Sou solteira, não posso negar que ainda estou procurando um parceiro com quem eu possa contruir uma família, e ter o "pacote completo", e pode parecer ultrapassado, mas ainda acredito na instituição família, e quando penso na meu futuro, eu penso em casar, ter filhos e tudo que isso inclui e espero muito conseguir. Mas se isso não acontecer, se esse parceiro não existir, pretendo sim ter um filho, seja por inseminação artificial, ou por adoção (creio eu que essa seria minha escolha), o método não importa, a questão é que me sentirei capacitada a criar uma criança, ainda é cedo para eu pensar em fazer tal ato, mas não para ter uma opnião sobre.

Criar um filho sozinho deve ser mais difícil, mas pensando nas conquistas femininas, as mulheres já conquitaram coisas muito mais difíceis, que em alguns tempos atrás era impossível.

Concordo com a Carol, quando disse que é melhor essa decisão, do que uma frustração.
Tenho duas amigas na faixa de 30 anos, as duas solteiras, e bem sucedidas em suas profissões. Uma Pensa que se não casar, vai ter um filho sozinha e vive super bem e é muito bem resolvida. A outra, já não pensa assim, mas também vive a vida do irmão que é casado e tem filhos, o sonho dela é ter filhos, mas se isso não acontecer, ela vai viver frustrada vivendo a vida do irmão dela. Isso não é legal!

beijos

Anônimo disse...

Carol, essa discussão realmente está excelente! Fiquei acompanhando um pouco de fora e agora resolvi me menifestar porque acho que me "encaixo" bem direitinho nela...
Tenho 34 anos , fui casada 6 anos e me separei há quase um ano. Durante meus dois últimos anos de casada, tentei engravidar mas não consegui. Sempre sonhei ser mãe. Por causa das tentativas frustradas de engravidar, comecei a frequentar um grupo de apoio a pais adotivos e pessoas que querem adotar.Conheci muita gente nessa situação (inclusive homens!!). Pessoas que não "acharam" o pacote completo e estavam em busca da realização da paternidade ou maternidade. E hoje me encontro exatamente nessa situação. Seu post inclusive foi encorajador. Estou apenas "ajeitando" a vida (fica tudo muito "embananado" quando a gente se separa...) e vou dar entrada nos papéis pra adotar. Realmete, não é todo mundo que tem sua sorte. E não dá pra ficar esperando aparecer o príncipe (ou princesa). Quanto as crianças precisarem de uma "família estruturadinha", esse conceito, na minha opinião, é bem relativo. Conheci "solteiros" nesse grupo que ofereciam mais "estrutura" a seus filhos que muitos casais por aí...Obrigada por ter levantado a lebre!

Carol Nogueira disse...

Eu penso como vocês, meninas. E reconheço o tamanho da coragem que é necessária para colocar um projeto deste em prática. Um beijo pras duas.
Ah! Me perguntaram se fui eu que "censurei" os comentários apagados acima. É claro que não. Foi apagado pelo próprio autor. Deve ter sido a versão rascunhada de algum comentário que alguém desistiu de fazer ou aperfeiçoou depois.

Felipe Campbell disse...

"ME perguntaram" é sujeito indeterminado!!!

Sarah disse...

Carol,
Cheguei bem tarde na discussao e acho que muito ja' foi dito. Eu sou a favor, nao acho que devemos abdicar de ter filhos porque @ "parceir@ ideal" nao apareceu. Cuidar de uma crianca sozinh@ e' muito dificil (mesmo com ajuda do governo), tenho amigas e um amigo que o fazem e sao muito corajos@s mesmo. Mas ha' alguns pontos importantes a serem citados, pai e mae e' a estrutura familiar com a qual estamos acostumados, mas existem varias estruturas familiares que funcionam muito bem. Na Africa tem varios locais onde a crianca e' mais criada pela "comunidade" que pelos pais biologicos; nas comunidades indigenas tambem. Existem pais e maes homossexuais amorosissimos e mais presentes que casais heterossexuais. Entao, acho que o ideal mesmo e' que o adulto responsavel pela criacao de uma criança (solteiro, casado, divorciado, viuvo) possa contar com o apoio de outros adultos que estejam tambem engajados na criacao da crianca (pode ser o conjuge, a familia, os amigos, a comunidade, o "Estado").
Agora, infelizmente quando vemos os estudos e estatisticas sobre a criaçao das criancas, ainda sao as mulheres que tem a carga mais pesada, mesmo quando elas trabalham fora mais horas que o marido e o pai super dedicado (fora exceçoes que confirmam a regra).E dizer isso nao é questao de feminismo, é questao de encarar as estruturas e comportamentos atuais, que estao mudando, mas lenta e vagarosamente.De certo modo, em termos praticos, as maes tem sido maes solteiras ha' seculos.
E sim tambem sou contra mulheres que engravidam com 3 meses de namoro, seria muito mais honesto elas se assumirem sozinhas, nao? E verdade seja dito, filhos nao "seguram casais", filhos exigem atencao, amor,energia, recursos o tempo todo e diminui o tempo "de casal" e o tempo "para si". Ou seja, engravidar "em casal" desse modo e' um pessimo calculo em todos os sentidos.
Agora, elas nao engravidam sozinhas... Rapazes , cade as camisinhas e espermicidas? E' muito facil jogar a responsabilidade da fertilidade so' nas mulheres - que devem tomar pilulas (e mudar suas taxas hormonais), usar DIU e etc. E'... quando leio coisas assim, penso que ainda temos um longo caminho diante de nos...
De producao absolutamente independente de homens so' temos um exemplo no mundo e altamente polêmico!

Anônimo disse...

sabe o que eu acho?
as pessoas complicam demais a vida!!!

Fabi disse...

Carol, querida. Tô solteira e beirando os 36 anos. É Felipe, nessa idade, as neuras são compulsórias - impossível não ouvir o tic-tac...é dureza, mas eu já tô começando brincar com a possibilidade de não ter a chance de ser mãe. Por que? Porque realmente não vou abrir mão de ter uma família - marido, casa, piriquito - pra DEPOIS ter o filho. Me conheço o suficiente pra saber que se for mãe solteira, TODAS as minha carências serão depositadas no pobre bebezinho. Não dá, é sacanagem demais com a figurinha, né? Enquanto isso o tempo passa, (e nem tenho me divertido tanto assim...rs...)- me sinto espremida no dilema - ser mãe ou ter família. E choro toda vez que penso nisso friamente...snif

Carol Nogueira disse...

Fabi,
Eu respeito demais a sua decisão. Apesar do sofrimento que essas reflexões trazem (pensar dói, né?), é importante a gente realmente PENSAR a respeito, considerar todas as alternativas que a vida nos oferece - que são muitas, com certeza. Te desejo tudo de bom!
Beijo