quarta-feira, abril 23, 2008

O ovo

Não vou dramatizar, não quero exagerar nem nada. Mas quando o dia amanheceu, a pomba tinha juntado os gravetos em forma de ninho, na janela dos meus meninos. Patandou, toda gordinha, sentou bem no meio, rebolou para um lado e para o outro, e mesmo a nossa curiosidade, e mesmo o barulho dos meninos não a fez levantar. A babá que entende de bicho sentenciou que 1) ela ia colocar um ovo, 2) ela ia ficar ali pra sempre, 3) ela era a criatura mais fedida, piolhenta, pulguenta, nojenta e cheia de doença da face da terra. Eu sempre concordei com essa última parte. Sempre odiei pombo e sempre me posicionei do lado dos que xingam as velhinhas que descem com uma travessa de migalhas para eles (ainda que eu nunca xingasse ninguém porque eu xingo muito mal em francês e eu tenho vergonha). Mas dessa vez era diferente. A pomba era uma senhora grávida, bem na minha janela – ou pior: bem na janela dos meninos. E eu não podia expulsar uma senhora grávida. Quando peguei a máquina para fazer a foto, eu paralisei. Ela levantou com medo e embaixo dela estava ele: o ovo. O neném pombo encapsulado. Ok, um futuro pombo nojento, mais um para a povoar a cidade mais romântica do mundo que tem um mascote cinza como ela. Mas ali era apenas um ovinho ameaçado de não-nascimento – e a ameaça era eu. Meu marido, a babá que entende de bicho e todo o resto da humanidade resolveram que o ninho tinha que sair dali. Eu não resolvi nada, mas assenti. A Pôncia Pilatas, nos dois sentidos. Na minha ficha no céu vai estar escrito assim: cúmplice de infanticídio.

13 comentários:

Alberto disse...

Fui eu o autor intelectual e material do crime. Realmente, não foi com conforto que fiz a pombinha voar dali, que a fiz abandonar o refúgio maternal para que eu pudesse dar início à "Operação Dá-no-ninho" (não, não foi a Polícia Federal quem deu este nome). Não foi com conforto que tangi aquela pobre ave columbiforme várias vezes, enquanto ela tentava voltar ao abrigo no meio da minha bem-sucedida operação. Não foi com conforto que a vi regressar à janela depois de ninho e ovo removidos, e ficar parada, triste, espiando tudo em volta por horas, à procura da própria cria... Em suma, se o Espírito Santo realmente for uma pomba, tenho a sensação de que estarei fudido quando chegar no céu.

Felipe Campbell disse...

Não acredito que esse foi o final da história. Estou perplexo, horrorizado, chocado e estarrecido com ato tão vil, nefasto e cruel.

Sem palavras.

Alberto disse...

Ainda bem que você ficou "CHOCADO", Felipe. Pelo menos, alguém saiu assim dessa história :) Cheirão!

Alberto disse...

Ainda bem que você ficou "CHOCADO", Felipe. Pelo menos, alguém saiu assim dessa história :) Cheirão!

Anônimo disse...

Eeeeeeeeeeeeeeeeca! Por isso eu sou 100% a favor de colocar contraceptivo na alimentação desses bichos nojentos! Criaturas abomináveis!
Agora só uma curiosidade porque não entendi bem o final: o que foi feito do ovo?

Carol Nogueira disse...

É que é difícil de admitir (ainda mais depois dessa mensagem encorajadora do Fê): o ovinho jaz numa sacola de plástico. Tentando minimizar minha culpa, coloquei a sacola na mureta lá da rua, na esperança da vida ser um desenho animado, e a pomba ir lá refazer o ninho na sacola de plástico. Mas quer saber o final? A vida não é um desenho animado! :(

Dante Accioly disse...

Compadres Pilatos,

Não esqueçam de, literalmente, lavar as mãos depois da operação. :)

Felipe Campbell disse...

No Camboja, neguinho come pombo frito nas ruas. É tão tosco que o bicho, morto e frito, tem cara de assustado, como se tivesse sido enfiado no óleo vivinho da silva.

Alberto, a do "Chocado" foi infame. mas boa, hehehee...abs

Anônimo disse...

Fez bem. Já aconteceu lá em casa, em BH, e o bicho nasceu. Feio, pelado e fedido. Ficou lá meses, fazendo sujeira e barulho. Um nojo. vc devia ter feito omelete. (arg!)

Natália disse...

Odeio Pombossssss!!!!

odeio, odeio, odeio!!!


Nossa que bicho nojento...me dê um motivo para esse bicho existir, somente um...não conseguiu pensar em nenhum?? Pois é. É pq não existe nenhum bom motivo para eles existirem, só para transmitir doenças.


Um Ato mais que normal remover aquele ninho dali.

Sergio e Marilena disse...

Esta é uma daquelas situações em que eu lavaria minhas mãos com certeza e deixaria que outra pessoa decidisse por mim. Também detesto pombos apesar de acha-los até bonitinhos, mas um ninho na janela ninguem merece.
Aqui em casa o final da historia seria diferente porque meu marido acabou de me dizer que não mataria o bichinho.
O jeito é não permitir que nenhuma pomba se aproxime do meu quintal.

Marilena

Chéri disse...

Olha só, eu também escrevi há pouco sobre pombos (eca!) parisienses. Dá uma olhada: http://cheriaparis.blogspot.com/2008/04/oras-pombas.html

Beijocas e valeu por ontem! Vamos combinar outras logo.

Carol Nogueira disse...

Dante, tivemos que jogar produtinhos na varanda pra bichinha não voltar! Só desinfetando!
Marilena, eu e Beto tivemos muita mas muita pena também, mas nossa preocupação com os meninos falou mais alto.
Beijos a todos