sexta-feira, setembro 12, 2008

Exótico e tropical

É verdade mesmo isso de que os franceses nos são simpáticos. Teve aquele ano do Brasil na França mas não é só isso. A cada esquina tem uma loja, associação de capoeira, de batucada, escola de samba, uma mega-loja Natura, outra que vende Arezzo e uma vez eu comprei guaraná em pleno Carrefour. Outra vez eu respondi de onde eu era e a moça fez tanta cara de uau que foi engraçado. Mas sabe?, alguém precisa explicar um pouco melhor.
Certo que não é aquele clichê Ronaldo, Pelé, carnaval, violência. Eles sabem também das praias, do tráfico nos morros, da cirurgia plástica, dos partos cesariana, de Foz do Iguaçu, sabem do Lula, assistiram Cidade de Deus.
Alguns sabem cantar músicas inteiras em português, porque eles sabem muito bem do samba. Acontece que eles sabem mas nem sempre entendem. Tipo me incomoda que eles cantam a barata da vizinha com exatamente a mesma emoção com que cantam um Chico. E definitivamente eles não captaram porque é que o elevador do Jorge Aragão é quase um templo.
É assim, eles acham a gente super espontâneo, super natural, dão pulinhos ao som do samba, tomam capiriña no bar da moda, e a gente quase acredita quando eles dizem quem-me-dera-ser-brasileiro. Mas depois de um tempo você aprende que essa admiração toda nos coloca num lugar super exótico e, mais do que isso, separado. Eles acham a gente bacana porque a gente é não-eles. A gente é super natural, engraçado e divertido, mas isso quer dizer também nem-tão-sério, talvez-menos-inteligente e definitivamente não-convencional. Anormal, em uma palavra. É uma admiração estranha que afasta ao invés de aproximar.

11 comentários:

Felipe Campbell disse...

A Apex tem investido horrores, junto com a Embratur, MDIC e MRE, acho, em trabalho de imagem do Brasil lá fora. A Unidade de Imagem e Acesso a Mercados aqui trabalha muito com a percepção de marca, confiança, o que os estangeiros pensam do Brasil, principalmente em termos de capacidade, compromisso, qualidade dos produtos que podem eventualmente importar da gente. O resultado é que, sim, eles ahcam que a gente é criativo, inovador e talz. Mas ainda correm atrás de um produto com certificado dado pela união européia na hora de fechar negocio. Ou de um produto vendido a séculos pelos americanos com 200% de confiança e qualidade. Mas isso tem mudado.

A questão de reconstrução de imagem é um processo cultural que leva anos, séculos, talvez pra mudar.

Quando morei na Austrália, a imagem que os professores tinham não só do Brasil, mas como dos latinos (venezuelanos, colombianos, mexicanos, argentinos, chilenos, etc) em geral era de que eramos espontâneos, itneligentes, criativos, mas, como eles mesmo diziam, "more relaxed". E isso é interpretado de diversas formas. Somos pessoas interessantes, boas de conviver, com boas conversas e muita surpresa pra apresentar. Mas acho que eles também nao nos levam tão a se´rio quanto queríamos, por exemplo, quando estamos tratando de assuntos sérios. Digo, temos que ralar muito mais para convencê-los de nossas habilidades extra-culturais. Temos que ralar muito para convencê-los que nossas carnes não tem vaca louca, que nossos equipamentos medico-hospitalares dominam os escritorios e consultorios medicos do oriente medio e são realmente topo de linha, qu enossas torres de transmissão de energia utilizadas no continente africano estão entre as mais modernas do mundo, que nossos engenheiros de softwares estão tão ou mais capazaes de entregar e solucionar problemas e demandas de empresas quanto os indianos.

Mas sinto um bom horizonte no futuro e nao digo isso por trabalhar onde trabalho. Mas por efetivamente ver coisas acontecendo nos ultimos meses, anos.

Beijocas!!!

Marina disse...

Oi, Carol! Achei este post interessante e instigante. A opinião do Felipe Campbell também. Tenho um irmão que mora há 4 anos na Europa, casou-se com uma sueca e mora em Estocolmo e, agora, eles importam produtos brasileiros. Fiquei curiosa para ouvir a opinião dele sobre o assunto. Beijos e bom fim de semana!!

Dante Accioly disse...

Os franceses também são legais. Não são muito cheirosos. Mas são bem legais. :)

Paula Menna Barreto Hall disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Paula Menna Barreto Hall disse...

Oi Carol, tenho lido o seu blog sempre. E o "linkei" no meu blog. É ótimo poder ler os seus textos e acompanhar a vida de vocês por aí. O seu post de hoje me chamou muito a atenção. Morando aqui nos Estados Unidos pela segunda vez, também percebo algumas das situações que você descreveu. Fez muito sentido pra mim. O blog tá muito legal mesmo. beijos pro cê e pro Alberto.

Solange disse...

Lembro que, da primeira vez que andei por essas bandas, fui com uma amiga que é o arquétipo da brasileira "goxtosa" para os europeus: mulata clara, alta, magra mas com um bom 'derrière' (a bichinha sofreu, principalmente com os italianos :D). Eu, com essa minha cara de 'Fraulein Frida' e falando a língua local, era tratada de maneira completamente diferente...

Solange disse...

(E, ops, tô devendo um e-mail procê! Ainda não escrevi porque a correria, só pra variar, anda muita)
Bjks

Bailarina disse...

Somos o "alternativo" do primeiro mundo! Apenas alguns acham graça...

Anônimo disse...

Le Brésil, ce n’est pas un pays sérieux

Como assim explicar melhor? Acho que a visão que os estrangeiros têm é a do brasileiro comum: que dança a dança do créu, que tem baixissíma escolaridade, pra quem sempre há um jeitinho, de um Brasil que tem uma politicazinha medíocre, que exporta SIM prostituta e garoto de programa, onde há prostituição infantil, onde muitas mulheres vêem na italianada a salvação de suas vidas. O Brasil de ponta, infelizmente, é uma exceção. Tá certo não querer generalizar, assim como qualquer brasileiro generaliza que o francês fede. Mas querer que o estrangeiro comum tenha uma imagem do brasileiro diferente não leva só tempo e muito menos marketing. O brasileiro que reclama dessa imagem precisa dar uma olhadinha no umbigo. É necessário que o Brasil passe a ser um país sério.

Carol Nogueira disse...

Não é exatamente o lado ruim do Brasil que eu me lamento de carregar o estigma aqui - até porque defendo absolutamente a gente enxergar nossos defeitos a sério como único caminho para mudá-los. Mas não é disso que estou falando (dessa vez). É justamente da romantização com que os franceses vêem o nosso lado bom, o jeito de ser, a camaradagem brasileira, tipo os bons selvagens. Eles adoram a gente, mas desse jeito separado, exotizante, que é estranho e incomoda. Um beijo pra todos os com nome, e outro para o anônimo.

Gigi disse...

Putz, Carol, que post legal! Me fez ficar pensando muito, pois também sinto um pouco disso aqui (ainda mais eu que quero estudar business!)
bjo, parabéns pelo post.
Gi