domingo, setembro 07, 2008

Independência ou morte

Eu parei de escrever teorias porque afinal de contas não fica bem. Quando a gente tem a pretensão de teorizar a sério acaba tomando medo da palavra. Mas todo mundo sabe que aqui minha filosofia é de botequim. Então vou contar a mais nova. A teoria da hierarquia inexistente. Eu cheguei à conclusão que a hierarquia não existe. Que existiu um dia, mas ih faz tempo. Hoje o que existe é um monte de gente que não sabe que ela acabou. Eu trabalhava no emprego que me legou metade dos meus grandes amigos da vida mas que na época roubava minha energia e minha alegria de viver. Meu trabalho era passar o dia ouvindo uma anta discursar pra um monte de fanáticos e depois escrever o que o meu chefe queria. Um dia, voltando da pauta na área rural do meu cerrado querido, eu vi uma casinha lá longe e pensei que eu queria ter na vida simplesmente um quintal de mato verde pra plantar e pra colher - muito embora eu não tenha vocação nem pra experiência de ciências com feijão no algodão. Eu chorei nesse dia (de pena de mim). Não pela falta de traquejo agrícola, mas pela tremenda e inútil complicação da minha vida, mesmo. Tem a ver com isso que pouco depois eu me dei conta. Na última sessão de cinema, aquela das 21h45, que eu cheguei atrasada metade feliz metade culpada por ter conseguido sair da redação a tempo, eu entendi que eu podia fazer isso todas as noites. Que tipo eu não era obrigada. Eu descobri a teoria da hierarquia inexistente. Que diz o seguinte: a gente obedece quem a gente quer. O que existe em cada empresa, em cada serviço público, em cada casa de família, não é um ser humano que manda e outro que obedece. Existe um que dá as regras e o outro que aceita – ou não. A opção de não aceitar existe sempre. Sempre. Mais uma vez: sempre. Antes que alguém diga que é fácil dizer isso pra quem é de classe média, eu digo uma vírgula. Eu não estou defendendo aqui ninguém jogar o emprego pro alto. Pra quem é responsável, tem bocas para alimentar ou só mesmo amor ao próprio nome, o caminho que separa a decisão de não obedecer do ato de não obedecer pode ser longo. Mas ele existe sempre. Sempre, sempre. Mais uma vez? Sempre.

12 comentários:

Rico disse...

Vou marinar essa teoria como exercício de fim de semana.

Gigi disse...

Oi Carol. Adorei seu texto. Estou lendo "1984" e de alguma forma achei que seu texto e o livro estão relacionados. E pelo jeito, você tomou uma atitude em relação à tremenda e inútil complicação da sua vida. Parabéns.
abs,
Gi

Bailarina disse...

Querida Carol,

Seu texto me lembrou de um filme francês que, aliás, você já deve ter visto e que se chama Apenas um lugar na platéia! É o que todos nós queremos ter e muitas vezes nos perdemos buscando ser estrelas no palco! Viver é realmente ser simples assim! Também entrei na onda da filosofia de botequim! Beijos saudosos

Bailarina disse...

Na verdade, o título é só "Um lugar na platéia", o apenas ficou por minha conta!

Felipe Campbell disse...

Eu sou a favor de todo e qualquer chute no balde em favor da felicidade. é triste ver negunho se agarrando em emprego que arrumou aos vinte e poucos anos e nao sai dali nem sob tortura, mesmo trabalhando fim de semana, feriado, sem horario pra sair.

Semana que vem eu completo um ano no meu emprego novo, que é bem diferente do anterior, nao tem a mesma dinamica, os mesmos amigos, mas faz muito bem à minha saúde.

E, como você disse, nao é questao de ser irresponsável. Tem que correr atras da felicidade sim, porque a vida, pra usar um clichê, passa muito rapido.

Beijocas

Paola disse...

Noooossa!!! Nem preciso dizer que SEI exatamente do que vc está falando (principalmente da parte do choro de dó de mim mesma).

E, sim, temos mesmo a opção de não obedecer. Mas tantas vezes nossa covardia e acomodação nos faz culpar o mundo por continuar obedecendo, né?

Mas é isso: SEMPRE podemos mudar. Eu estou trabalhando para isso. Para ser (literalmente) igual a vc ou ao Beto...

beijos, amiga, e até breve.

Nina disse...

Oi! Gostaria de te convidar pra conhecer meu blog: www.bazardaninarosa.blogspot.com
Um abraço!

Marilena disse...

Olá Carol,

concordo totalmente com vc. Várias vezes na minha vida tive a oportunidade de chutar o balde e optar por ser feliz. E sempre fui pobre (até me casar e me tornar uma pobre mais abastadas). Mas não aceito ser infeliz, ficar lamentando minha vida, reclamando das coisas e não fazer nada pra mudar. Mais uma vez estou me preparando pra chutar o balde e vou levar comigo três filhos pequenos que nao podem opinar por enquanto. Pra absolutamente tudo na vida nós temos pelo menos duas opçoes e a escolha é sempre nossa, SEMPRE!

um beijo

Anônimo disse...

Essa é a velha e boa liberdade...

Dante Accioly disse...

Falou e disse. Assino embaixo. :)

Maíra Brito disse...

saí do 'Linha de Passe' me sentindo meio assim. na verdade, entrei no cinema me sentindo meio assim. meio sem lugar no mundo. acho q me sinto assim todos os dias. reconheço a hierarquia através da matrix. sei onde ela está e como fugir dela. mas tem uma hierarquia íntima q me aprisiona. tem opções q a gente faz e não se desfaz... ou não se desfaz sem sofrimento...

Anônimo disse...

Discordo. Acho que vc confundiu hierarquia com ditadura ou escravidão, sei lá!! A hierarquia continua existindo ainda que fruto da decisão se submeter às ordens de alguém.
Se você tem de obedecer para manter o emprego que, por alguma razão vc precisa ou queira manter, a hierarquia existe. E vai ser sempre assim.