sexta-feira, outubro 24, 2008

A minha medida de violência

Aconteceu há meses, mas eu não estava pronta para falar. Agora estou.

Eu nado na piscina pública, já contei uma vez. Porque ela é ótima. Porque é barato. E porque eu adoro o sentido que os franceses têm do que é público. Comunitário, coletivo, gregário – e que, por ser tudo isso, é o mais inclusivo possível. Por isso os espaços públicos são absolutamente irrestritos, laicos, mistos. Eu faço questão de viver essa filosofia, apesar dos problemas que ela traz. Um deles é você não ter o menor controle sobre quem troca de biquine na cabine ao lado da sua.

Eu estava leve e feliz, que é como se sai de uma piscina. A minha própria companhia, o silêncio e a sensação de dever cumprido. Eu passava o creme anticelulite (que funciona) quando olhei para baixo e vi uma câmera fotográfica, uma mão e um braço que vinham da cabine ao lado. Essa imagem triscou a minha retina no mesmo instante em que um grito saiu da minha garganta, e no início era só o susto apavorado de quem vê uma barata. A indignação chegou meio segundo mais tarde e quando eu dei por mim já estava enrolada numa toalha, do lado de fora da cabine, esmurrando a cabine vizinha e chamando por ajuda.

O zelador da piscina assustado me perguntava o que fazer, e foi só então que eu vi que não restava nada. A minha foto nua, se é que chegou a existir, talvez nem existisse mais naquele instante. E quem é que indagaria?, quem é que investigaria?, quem é que confrontaria aquela pessoa (em francês)?, quando era tão mais fácil me tomar por louca, esquecer a imagem da câmera invadindo minha privacidade e minha alegria, pronto, isso nunca aconteceu. Enrolada numa toalha, discutindo com o zelador, o rosto molhado de cloro e choro, eu nunca me senti tão nua na vida.

Eu aprendi na faculdade que os oprimidos não conseguem falar. Eu falo. Eu gritei na hora e eu estou gritando agora. Eu continuo nadando na piscina pública porque ela é ótima, porque é barato e porque eu adoro o sentido que se dá aqui ao que é público. E porque não sou eu que não pertenço àquele lugar.

7 comentários:

Felipe Campbell disse...

Caracas, tô de cara. Já pensou se para na internet? Que coisa horrível.

Paula Menna Barreto Hall disse...

Carol, continua indo mesmo e saindo da piscina leve e feliz. Essa sensação da sua privacidade invadida vai passar e ainda bem que você esta gritando! Cuida de você e de não deixar nada e ninguém tirar de você essa alegria de curtir a vida do jeito que você quer e acredita. beijocas

Kia disse...

Estou chocada só de ler....
Um ou uma f..d...p... que fez isso merece um Massaranduba para meter porrada.
Dica: Leve uma câmera com vc e fotografe por baixo da porta caso ocorra outra vez e a pessoa não abra a porta.
Bjs e continue nadando.

Kia

Bailarina disse...

Querida,

Que ódio! Até onde vai a covardia de alguém, né? Tô chocada, mas siga com a sua piscininha! Beijo grande!

Leandro Wirz disse...

Putz, que escroto! Que violência! Tomara que da próxima vez, o miserável escorrege no banheiro, bata com a cabeça e...

No mais, que vc continue mergulhando em piscinas de paz.

Que bom seria se no Brasil tivéssemos a mesma noção sobre o que é público. Aqui, público não é de todos. Aqui, público é de ninguém.

Bjo

Maíra Brito disse...

vc já soube q na Câmara - sim, na Cãmara dos deputados - tem acontecido coisa parecida. Uma das meninas da Rádio passou por constrangimento e violência assim, ao ir fazer xixi. resultado, finalmente vão reformar alguns dos banheiros...

Aninha disse...

o caso que a maíra acabou de comentar aconteceu com a ana raquel, minha prima, num banheiro no anexo 4 da câmara. isso só pode ser doença...