quarta-feira, outubro 29, 2008

O diálogo de antemão

Não vou dizer que é de hoje porque eu sempre fiz isso. Pra pedir uma folga pro chefe ou comunicar ao marido um programa do qual ele não seria exatamente entusiasta. Horas antes do evento em si já estava tudo planejado mentalmente: o melhor momento e as melhores palavras. Eu vou dizer isso, ele vai responder aquilo. Se ele disser isso, eu respondo aquilo, se ele disser aquilo-outro eu digo tal outra coisa. E assim por diante.
O problema é que agora eu preciso antecipar diálogos o tempo todo. Vinte e quatro sobre vinte e quatro, como eles diriam. É que o meu francês não é essas coisas. Dá para viver, mas fazer piadinha, uma ironia ou dar uma resposta malcriada quando é necessário (e sempre é necessário) não é coisa para amadores. A pessoa precisa estar preparada.
Então eu treino na cabeça o que dizer se a pessoa reclamar que eu demorei a descer o carrinho no ônibus. Ou como convencer o entregador do Carrefour a deixar as compras na cozinha (opções brava ou com drama). Como ensinar à mamãe chiquérrima que nosso subdesenvolvimento não pega dividindo a pá de plástico no parquinho. Explicar pro bilheteiro do cinema que a etiqueta da minha carteirinha não é falsa, foi meu filho que tentou arrancar. Pode ser que nem precise de nada disso, mas agora eu já estou pronta. Eles que ousem.

11 comentários:

Felipe Campbell disse...

O problema de ter tudo de antemão é que você fica desprevenida quando a pergunta é mirabolante. Ou que a entonação da pergunta pode significar algo bem mais (ou menos) agressivo e resmungão do que o que se imaginava inicialmente.

Beijocas

Bailarina disse...

Carol,

Veja só como já fui louca, eu costumava escrever cartas- resposta em brigas de namoro, antecipando o que eu diria quando acontecesse o arrependimento da pessoa (que sempre vinha), só para não perder o "timing" da raiva que ele tinha me passado no momento! Acho que se enquadra nesse diálogo de antemão, né? hahahaha Agora eu evoluí, se me aborrecem já digo na hora mesmo e nem quero saber de arrependimento! rs

Anônimo disse...

Ai, Carol, super me identifico com esse post!
Isso aconteceu tanto comigo! Sério mesmo! Eu toda bem intencionada a aprender francês antes de ir pra França, ensaiava várias frases pra usar em restaurantes, hóteis, estações de trem e metrô, até que vinha aquela resposta que não estava no script. Mas eu acabei me virando bem com a linguagem de sinais não oficial. Sem contar aquela linguagem de infinitivos que, se traduzida por português, dá um bom diálogo tupiniquim, do tipo "elas não saber... café" que, fora de contexto, não diz nada, mas que associada a alguns gestos e caras de desespero, bem informa pra moça da recepção que as suas amigas estão em apuros com a máquina de café expresso que disparou...
Beijos com saudades!
p.s.: o melhor do post, disparado, é a foto!

Alécia

disse...

O problema é funcionar na hora H! Sempre da' branco e quando estou muito mas muito brava mesmo ai não sai nem o francês. Fico com a raiva entalada na garganta...

Beijos!

Leandro Wirz disse...

Quando eu era adolescente,era super tímido e confesso que fazia esse treino, antes de ligar para as meninas. Mas a conversa sempre saía diferente e o ensaio de pouco valia...rsrsrsrsrs

Rico disse...

É, estou desaprendendo a arte de ser falastrão na França. Para tudo, eu servia de teorias, da física quântica, do sarcasmo improvável... hoje, eu sorrio quase que com a boca em linha reta, esticada, com a melhor frase de efeito encaixada que só eu vou escutar, e achar genial, ou capenga.

No meio-tempo, é "imprimir" espontaneidade aos coringas decorados, rs.

Bon courage!

Mariana SCHMITZ disse...

Também me identifico totalmente com este post!!! Antes de fazer uma ligação para marcar um rendez-vous ou qualquer coisa mais formal, sempre fico alguns minutos encarando o telefone e ensaiando as palavras...vamos combinar que existem formas ja pré-estabelicidas em francês para cada ocasião, nivel de formalidade, etc...
E quando a raiva sobe, a coisa fica mais complicada ainda!!! Viva a improvisação e a expressividade universal do olhar!!!
hehehehe...

Paula Menna Barreto Hall disse...

Carol, eu faço isso direto também!! Muito engraçada essa nossa vida de estrangeiro. beijos

ELEONORA disse...

Carol, uma vez eu fui insultada por um francês no Rio de Janeiro, em pleno Corcovado, só porque eu estava na frente dele e ele queria tirar uma foto da vista. Eu já falava um pouco de francês, mas estava longe (como ainda estou) de conseguir responder um insulto em francês (muitas vezes não consigo nem em português...) O máximo que consegui dizer foi: "J'ai compris!" Só pra ele ver que aqui a gente não é tão ignorante assim...

Marco disse...

ainda é outubro, quase novembro, mas já comecei a fazer as promessas de ano novo. em 2009 vou aprender francês. acho que vou precisar. não vejo a hora de chegar logo aí... será que eu vou gostar?

Anônimo disse...

Concordo com a Alécia: o melhor de tudo é o Joãozinho na foto!!!
e acho que o Leandro lembrou bem: esse ensaio de diálogo é meio coisa de timidez... eu tambem fazia isso muito (em português mesmo) e treinava também pra não ficar nervosa nem vermelha quando chegasse a hora da verdade...
mãe