sexta-feira, abril 17, 2009

A indesejada das gentes

Eu cresci sem poder falar muito em morte, em desejos póstumos como por exemplo onde e como gostaria de ser enterrada. A frase que começava como “quando eu morrer” nunca chegou ao final porque meu pai não deixava, assunto proibido. O que não evitou que as pessoas morressem ao meu redor. Meu tio mais querido, meu avô por com quem nunca tive grandes afinidades, minha avó absolutamente adorada. Há uns meses morreu L., e com ele seu olhar que me perturbava. Ontem morreu K.

Além de amigo, K. era meu companheiro de trabalho, meu editor à moi, sempre que eu tinha escolha. Concordo com os que dizem que colegas de trabalho são companhias impostas que em pouco tempo se tornam mais íntimos que família – pessoas com quem a gente passa mais tempo por dia do que com o marido, os pais, os melhores amigos. Eu adorava trabalhar com ele, adorava a praticidade e o bom gosto, o mau humor, a acidez, a inteligência.

Gosto de pensar que foi uma morte bonita. Desde sempre ele soube da gravidade do que tinha e da dificuldade de se curar, o que não o impedia de tentar rir, de si mesmo e do mundo, com a parte direita do corpo que continuava se mexendo. Gosto de pensar que ele teve tempo de comer o que gostava, de falar umas verdades para quem o fez sofrer, de agradecer o amor, o carinho dos amigos. E também gosto de pensar que, hoje, eu posso falar o que quero.

Uma torta de morangos maduros. Uma cerveja ou um champagne, o que o Beto preferir. Música boa, samba ou bossa nova, ao gosto da audiência. Um abraço apertado dos que eu amo e a promessa – a jura – de que todos ficariam bem depois de uns meses (que até lá, sei como é, convém às vezes você sofrer). E depois virar cinzas, que iriam dormir num pedaço de cerrado onde minha irmã pequena gosta de ver o pôr-do sol.

Mórbido, nada. Melhor falar agora que depois encarar em cima uma laje, embaixo a escuridão.

10 comentários:

Felipe Campbell disse...

Eu estou absolutamente chocado com a morte dele. Não consigo entender como um cara tão tranquilo, gente fina e do bem pode morrer, assim, aos 49 anos, de infarto. Tudo bem que a vida nao era a mais regrada, mas nao era nada assim, fora do comum.

O K. foi o cara que me contratou, me promoveu a subeditor com 23 anos, me deu aumento, meu deu duas colunas (uma delas diária) no Correio Braziliense. Enfim, trabalhei por uns 5 anos com ele. Uma pessoa fantástica, culta, um bon vivant, companhia agradável.

Ontem lembrei de várias histórias, várias palavras, vários momentos engraçados, toscos vividos com ele. Até de um jogo entre Fluminense x Serra, pela terceira divisão do Campeonato Brasileiro, que a gente foi ver no Bar do Professor (atual Lapa, onde eu fui com você tomar umas cervejas agora em fevereiro), em 1999.

Lembrei de situações que mostravam o jeito meio avoado e blazê as vezes que ele tinha, mas que, na verdade, eram apenas formas de passar uma tranquilidade contagiante a todo mundo que trabalhou e trabalhava com ele há até bem pouco tempo.

Ontem eu fui no velório dele e me deu um frio na barriga vê-lo ali, exposto no caixão, com a mesma fisionomia de quando o conheci. Sempre penso em milhares de lugares comuns e coisas clichês quando me deparo com essas situações. É chocante, horrível, mas, pelo menos, para continuar sendo clichê, tenho certeza que ele viveu bem seus anos por aqui.

É triste saber que ele talvez estivesse chegando a metade da vida (sim, porque quando nos, que estamos na faixa de 30 e poucos, tivermos uns 70 a 80 anos, a expectativa de vida ja vai estar batendo nos 100) e foi interrompido dessa forma. Mas com certeza o que fica na memória é o carinho, a dedicação, o respeito e a admiração por um cara tão legal.

Tô triste mesmo. Bem triste.

Beijo

Andrea disse...

Carol, tão lindinho teu post... fiquei emocionada. Tá todo mundo tão arrasado. Triste.
Beijos

Paula Menna Barreto Hall disse...

Sinto muito, Carolzinha. Sinto muito. Só fiquei sabendo hoje, pouco antes de ler o seu texto. Deu um aperto no peito. E algumas cenas me vieram como num filme, a lembrança gostosa de um olhar sincero. Bela homenagem, Carol. Doída, verdadeira e singela. Me emocionou muito. Fica bem. bj

Anônimo disse...

Carol,

Apesar da morte cerebral constatada, a família ainda aguarda o anúncio da morte. Get foi para Recife ontem, e mandou mensagem dizendo que os batimentos e a pressão estão mais fracos e que "ele está bonito e com cara de paz".
Beijos a todos,
Alê

Maíra Brito disse...

--- suspiros ---
qdo a gente é criança, a morte parece algo tão distante! eu ainda não aprendi a lidar com isso. viver a simultaneidade de ter Estela crescendo, minha mãe envelhecendo, alguns amigos partindo.
entendo qdo vc fala das coisas q gosta, do q deseja pro seu momento. eu sou assim tb. a morte não me apavora. apavora não ter dito e feito todas as coisas bacanas pras pessoas bacanas q me rodeiam. e pra mim mesma tb.
=)

Anônimo disse...

Ele sentou ao meu lado nesses últimos meses de trabalho. Era a alegria das minhas tardes. A gente dividia a diária salada-de-fruta de cinco reais. Era espirituoso. Alegre. Engraçado. Adorava "fazer passeios" pelo Google Earth e imaginar sua casa na praia em Pernambuco. Tenho certeza que ele está por lá agora tomando um banho de mar naquelas lindas águas claras e mornas do Recife.
Uma pessoa sensacional. Vai fazer falta. Carol Jardon.

Ciça disse...

um filme... concordo com Paula. Passou um filme na minha mente. Foi um imenso prazer tê-lo conhecido...
Um guerreiro, esse era K.
saudade desse cara.

Renato disse...

K. também foi o meu primeiro chefe no Correio Braziliense. Gostaria que assim tivesse ficado comigo mais tempo.

Jornalista brilhante, dono de texto inteligente, ácido. Pessoa culta, mas extremamente modesto. Muito diferente dos intelectualóides que se gabam dos seus títulos.

Pessoa corretíssima, fina. Nunca o vi levantar a voz para ninguém. Nunca o vi destratar ninguém. Muito diferente de muitos chefes.

Vai fazer muita falta. Ainda tinha muito a ensinar.

Ana Chalub disse...

k. era, sim, resmungão. ácido. mas era um puta jornalista, criativo, com textos maravilhosos. eu ganhei um amigo para sempre. o mundo perdeu um cara de coração maior que ele.

o carnaval nunca mais será o mesmo.

Anônimo disse...

mana, um abraço apertado em você - primeiro assim, depois ao vivo. pra te dizer que o importante é o amor, e ele fica. eu te amo muito. sá.