terça-feira, abril 21, 2009

Máquina de sentir saudade

Diz Umberto Eco que o texto é uma máquina preguiçosa - o que, segundo as teorias literárias que me esforço para aprender, quer dizer que nenhum texto está completo sem a participação deste ser imprevisível que é o leitor. Pouco importa o que você tenha querido dizer: é ele que tem a chave do seu texto e vai compreendê-lo de acordo com as vivências, experiências, emoções que ele mesmo amealhou ao longo da vida.

Quando eu escrevi aquele texto ali embaixo, achei que estava acertando as contas com meu pai por ter me ensinado tão bem a tergiversar a morte, como se isso adiantasse de alguma coisa. Pensei estar traduzindo o peso que eu sentia no peito muito mais como uma enorme frustração por não conseguir assimilar a morte de uma maneira minimamente saudável do que como saudade, pura e simplesmente.

Escolhi chamar o meu amigo de K. porque era essa a primeira letra do nome dele. E porque eu aprendi com a Lygia (ops, com a L.F.T.) como é bonito não expor pessoas que não pediram para serem expostas.

Acontece que, por ironia deste senhor engraçadinho que é o destino, Kido Guerra morreu de infarto no mesmo dia em que Kildare dos Anjos teve sua morte cerebral diagnosticada pelos médicos. Os dois, em maior ou menor grau, eram meus amigos. Com o primeiro eu trabalhei no Correio Braziliense, mas nunca na mesma editoria. Quando os plantões da vida nos juntaram na mesma equipe, tomei o maior susto de ver que existiam chefes legais dentro daquele jornal. Kildare foi meu editor direto na TV Câmara nos quase três anos que passei por lá. Seu mau humor cômico e seu carinho disfarçado faziam parte dos melhores momentos das minhas manhãs.

Escrevi pensando em um e falei sobre os dois. Quis me dar o direito bobo de culpar meu pai pelas inevitabilidades da vida e abri espaço para que amigos de um e de outro dissessem aqui o que gostariam muito de ter dito a eles. Eu construí a máquina, vocês fizeram funcionar.

4 comentários:

Felipe Campbell disse...

Foi uma triste coincidência, que e só reparei relendo nos detalhes.

Mas a tristeza é a mesma, e o importante é que a palavras e formas de expressar o que se sentia, para um e para outro, foram colocadas ali.

Um beijo

Leandro Wirz disse...

Excelente texto, muito bem construído.
Meus sentimentos por seus amigos.

Anônimo disse...

Carol, só agora vi que você já sabia do k. Ele teve uma passagem tranquila e foi levado para um lugar lindo, com vista para o mar.Bjs Cacau

Anônimo disse...

Carol, agora que toda confusão foi desfeita, queria te contar que o coração do Kildare parou de bater naturalmente na manhã da última segunda, dia 20. E, como disse o Cacau acima, ele foi levado para um lugar lindo, com vista para o mar que ele tanto amava.
Bjs., Alê