terça-feira, junho 23, 2009

Alteridade

Ai, a moça arrumada, trabalha na certa em um grande escritório de moda, ou no mínimo em uma revista badalada – e eu aqui, de chinelo e livros.

Ai, a mulher despreocupada, sentada no banco com todo o tempo do mundo, ela vê o tempo passar e ele é gentil – e eu aqui, olho no relógio.

Ai, o cara apressado, mil clientes esperando, ou vende ações ou compra ações, e no final do mês não precisa fazer contas – e eu aqui, nem trabalho.

Ai, as meninas engraçadas, rindo de si mesmo e das outras, combinando a jaqueta de couro e o fim de semana – e eu aqui, com trinta e uns e uma prole de dois.

Ai, o homem arrogante, o olhar lancinante, as poucas palavras, o jeito assertivo – e eu aqui, tradução encarnada da palavra serviable.

Ai, a mocinha com seus livros, todos os livros do mundo, caminho da biblioteca na certa, indo escrever minha monografia que já deveria estar pronta – e eu aqui, comprometida com o trabalho até ser amanhã.

Ai, aquela senhora, a sabedoria que segura a mãozinha da neta, nem uma gota de ansiedade no meio do olho azul profundo, a calma de vestido vermelho com folhinhas verdes – e eu aqui, um poço de dúvidas.

Ai, a turminha de seis ou sete, empilhados aos dois ou três, preocupação zero na vida, lembrando do passeio no parquinho, desobedecendo a professora histérica – e eu aqui, quase mais ela do que eles.

Ai se um dia eu fosse o outro, essa mistura alucinada de todos os outros – ia me olhar no metrô, quietinha, e querer muito ser eu mesma.

13 comentários:

Mari disse...

Hhahaha! Amei! E nao é verdade?! Beijao, primoca! (Já tá podendo escrever um livro de contos bem bacana, ein?!)

Leandro Wirz disse...

Excelente! Brilhante!

Anônimo disse...

muito muito muito bom. cada dia fico mais sua fa.

Anônimo disse...

Falando nisso, creio que muita gente já olha a sua vida desejando ser você.

Mauricio disse...

Carol,

é a primeira vez que escrevo, embora acompanhe os seus textos há algum tempo. Acho-os excelentes. Aliás, admiro as pessoas que, como você, conseguem se fazer entender nas palavras fáceis e certeiras e que, muitas vezes, dizem muito mais do que exprimem.
Ah, pra finalizar: lembro-me de você da Escalada..bonitinha, pequenininha...e somos colegas da Câmara, ainda que, creio, não temos nos cruzado nos corredores.
Um abraço,

Mauricio

Anônimo disse...

Acho que esta foto foi tirada da "varadinha" da biblioteca do pompidou... e acho que ja me senti igual a você... rs... Parabens pelo post, ou melhor, pelos posts, em geral. bon courage pour la suite. JL.

Bel Boucher disse...

Olá, Carol.
De blog em blog acabei encontrando o seu. Também sou jornalista e também morando na França.

Excelente blog. Adorei. É sempre bom compartilhar histórias e impressões do exílio voluntário.
Bjs

Anônimo disse...

Sou nova no espaço, mas gostei muito do seu blog.Pode parecer uma unanimidade,mas eu não gosto da França. Quer dizer tlz eu t
enha me expressado mal, o que não gosto na França é dos franceses...

Anônimo disse...

pode parecer uma exceção*

Maíra Brito disse...

são os dilemas q nos definem
=)

Anônimo disse...

Carol, que bonito.
Surpreendo-me com a quantidade de vezes com que temos que abrir de mão de sermos o outro, ou todos os outros para escolhermos sermos só uma...
Estou em paris há um mês e o metrô tem me causado inúmeras reflexões.
Gostei muito do blog.

patríciaD disse...

Nossa! Lindo, lindo o seu blog... "Te" conheci hoje pelo Noblat e terminei de ler este post pensando que, quando eu crescer, quero aprender a escrever assim... Não que, a essa altura do campeonato, ainda exista alguma esperança... de crescer, digo. Parabéns!

cláudio de paula disse...

que bonitinho,hehe. alteridade faz parte do tema da minha monografia. gosto de tudo que se relacione ao assunto =)