segunda-feira, junho 29, 2009

Tidevoro

Reservo uma sexta-feira para matar saudade de amigo querido, mas penso nos meninos e ela me come um braço. Trabalho bem duro, penso na monografia e ela me come a perna. Vou para a biblioteca, penso na internet pululando de notícias e ela me come um olho. Saio para fazer os soldes, penso na conta bancária e ela me come as unhas. Bebo cerveja e quero preguiçar no sábado, mas os pequenos pedem parque e ela me come o estômago. Compro um carro e quero alugar outra casa, mas penso nos meus pais e ela se lambuza com minhas veias e artérias como se fossem espaguete ao sugo.

Lembro de um livrinho bilíngue, o primeiro da minha vida. Eu tinha preguiça das letrinhas todas em inglês ou talvez fosse a história que, mesmo em português, me deixava agoniada. A menina morria de tédio e precisava prender três monstros coloridos dentro do armário: o desânimo, a inveja e a culpa. Os dois primeiros ela conseguiu. Mas a culpa tomou fermento e devorou a menina inteirinha no café da manhã.

O final não era assim, claro. Mas depois foi.

16 comentários:

Gigi disse...

Carol, não consigo deixar de admirar todos os seus textos, bom demais esse!

Ana Pereira disse...

Cá, vc escreve com poucos, adoro!!! saudadiiii sempre, beijão!

deborah_nogueiraa disse...

eu li várias e várias vezes esse livro! mas to muito irritada porque não lembro o nome dele! se não me engano, o nome da menina era tipo ana maria... ou não? ai que angústia! só lembro que tava um dia lindo e todo mundo chamava ela pra ir pra praia (ela tinha um amigo chamado tonico, ou coisa parecida) me ajuda a lembrar o nome! :(

Ana Chalub disse...

realmente, dentre os três, a culpa é o mais perverso dos monstros. tento evitar ao máximo que a minha tome fermento. mas acho que ela se alimenta muito mais de dúvidas do que qualquer outra coisa. e dúvida é algo que, realmente, eu nunca vou deixar de ter... ai, ai...

Mari disse...

Ah Carol, vc adivinhou meus pensamentos! Vi as fotos de sexta-feira e fiquei aqui tentando entender: como é q ela lida com as outras mil coisas que ela precisa fazer e ainda consegue aparecer assim, livre, leve e solta, numa bela foto?! Pq eu, primoca, estou aqui surtando com a minha dissertacao! Deixando a culpa tomar bastante fermento, pq o gatinho está, já há algum tempo, me pedindo pra reservar todo o próximo fim de semana pra irmos no casamento de amigos... Ontem, eu fiquei com vc no pensamento, com a vontade doida de te pedir: "me ensina?!"

Yashá Gallazzi disse...

Conheço o blog há pouco tempo, mas agora não consigo mais passar um dia sem ele. Algumas vezes, custo a aceitar que os muitos afazeres diários impedem a "nossa" Carol de escrever diariamente... Mas então lembro que ela está atarefada com os dois pequenos homenzinhos dela, gastando seu tempo da melhor forma possível. Sem falar que está em Paris... Ah, Paris...

Mas devo engrossar as vozes que já se espalharam por aqui: seus textos são ótimos! Realmente muito bons!

Como trabalho pouco é bobagem, lanço aqui uma ideia, quem sabe para o futuro: por que não escrever um livro? Acredite: para um leitor compulsivo como eu, é deprimente sofrer com o estado da literatura atual brasileira. Precisamos de mais escritos verdadeiros, com sentimento e força nas palavras. E tudo isso eu encontro sempre aqui.

Já revirei os arquivos do blog e li tudo o que havia para ler. Por isso um livrinho cairia bem... Sobre o quê? Ah, sei lá! Sobre Paris... Sobre os filhos... Sobre Paris e os filhos... Sobre qualquer coisa! Um livro bem escrito é sempre um ótimo livro!

Parabéns por mais esse grande texto Carol!

Leandro Wirz disse...

Carol, a culpa é um sentimento improdutivo. Esqueça!
Mas quanto ao livro sugerido pelo Gallazi, creio que faz parte dos seus planos e eu estarei na fila dos autógrafos. Bj

sidneif disse...

Olá, Carol

Seus textos sempre a desnudar as fragilidades humanas. Nossos conflitos estão ali à espreita. Então o que fazer? Aconchegar-se na pureza do sorriso de uma criança, contemplar o que ainda resta ( vil homem!)da poesia da natureza - o mar imponente, o jardim viçoso e cheio de lirismo, o pássaro galhardo e majestoso e que tais -, acolher o outro, a diferença.
Resolverá nossos nós gódios? Não. Mas é confortante ter a esperança que a vida pode ser simples e bela.

Parabéns, menina! Sou seu fã.

Um grande abraço!
sidnei

Ciça Calvoso disse...

Acho que quando eu era bebê me ninaram com a música: "dorme nenêm que a culpa vem pegar...".

Sou craque em me culpar por tudo, sempre, apesar de concordar com o Leandro quanto à improdutividade do sentimento. Eu tento, tento, mas ainda não consigui me libertar.

Anônimo disse...

Lindo!Lindo!

sidneif disse...

Oi, Carol

errata: nó górdio; esperança de que...

Peço escusas.

Um grande abraço!

InarA disse...

Salut Carol!

Primeira vez que caí no teu blog e acho que seguirei nele a cada atualização.
Très bien!

Maíra Brito disse...

excesso de culpa?
acho q a 'culpa' é da nossa criação católica. parece q sempre tem pecado demais na nossa história.

Felipe Martins disse...

Muito chata essa historia de culpa. Vc ja e uma super mae, super mulher, super amiga. tem direito de ser teoricamente irresponsavel por alguns momentos e se dedicar a si. Eu ja sofro do problema inverso: nao tenho o menor remorso de fazer essas coisas prazeirosas e necessarias para mim. Tem que saber dosar. E isso vc ja faz ate alem da conta. Ta na hora de pensar um pouquinho mais em vc mesma.

Beijocas

Sergio Trentini disse...

adorável. :D

Anônimo disse...

Carol, adorei o texto. Essa maldita culpa realmente nos devora...Qdo então penso em fazer regime, ela se intensifica, e eu, com esse rebelde inconsciente, mostro para a culpa que ela não manda em mim...Resultado: já estou 5 quilos mais gorda...Pode???