sexta-feira, junho 05, 2009

Nossa hipocrisia bem-intencionada

Não sou eu que ponho a questão, é alguém bem melhor: Georges Perec, em Les Choses.

O posfácio do livro coloca a gente, meio-intelectuais meio-de-esquerda, ou white people na definição ianque, no meio de um cruzamento completamente desconfortável.

Nós, que professamos a beleza da vida, o império do ser, a importância da essência. Que sonhamos de uma casa no campo, onde eu possa levar meus amigos, meus discos e livros e nada mais. Que queremos trabalhar menos, nem precisamos de tanto assim para viver, desde que possamos viver melhor, ter tempo para a família, nossos amigos queridos, o que importa. Nós, que nos acostumamos a fazer esse discursinho todo em torno de uma cerveja, ouvindo música boa.

Perec nos coloca diante de dois personagens mais ou menos como a gente – talvez um pouco mais fúteis, mais ávidos, mas devemos a eles um desconto porque afinal têm dez anos a menos. Eles fazem o nosso mesmo discursinho, e vira e mexe sonham com coisas. Não vou citar os divãs, as cadeiras que eram fetiches quando o livro foi escrito: para falar na nossa língua, vou listar a bolsa alternativa da feira, uma blusa de um estampadinho super charmoso, a discografia completa do Chico dentro de uma caixa em que a foto preto e branco brilha no papel couché, a edição comemorativa de Vidas Secas, que custa cem contos. Essas coisas todas, sabe? Que a gente nem percebe, mas quer. E às vezes quer muito.

Não é engraçadinha nossa vida pequeno-burguesa. Não há nada de fofo, de bacana, de bonitinho – o Perec faz com que seja desconfortável nos ver de perto. Não tenho solução para nossa contradição estrutural - mas pelo menos agora não estou sozinha nesse mal-estar.

13 comentários:

Gigi disse...

Eita, esse livro entrou no topo da minha lista, próxima leitura com certeza!
bjos

Luci disse...

é, a gente acha engraçado até se dar conta. "opa, é de mim que tão falando"

Luci disse...

ô, rapaz, cheguei aqui pelo blog da amanda. gostei muito. tanta sobriedade que faz a gente corar! parabens!

de um post mais antigo: "3. Pesquisar devagar antes é o segredo para escrever menos devagar depois". otimo conselho pra quem estah enrolada com uma monografia que jah dura um ano.

um abraço a você!

Felipe Martins disse...

Não vou lê-lo. Cara mal resolvido.

Leandro Wirz disse...

Ter não é moralmente incorreto. Desejar também não é. Não há nada de intrinsicamente errado com o consumo. O problema só existe se, além do consumo, não houver mais nada. Há problema se não houver essência. Se também há "ser", então, esqueça essa culpa por ter ou por querer ter.

hareaumbabaji disse...

O desejo é natural (depende qual!)
... e o seu (daquele natural) melhor potencial está dentro do direito natural (que também não é qualquer um !) ... assim, até por um certo egoísmo, poderia se dizer, o direito natural urge ...
dificuldade ?! é o ignorante que pode achar difícil trocar o engano pela adequação ! Tudo vem da natureza e todos os seres vivos são "herdeiros" da natureza e logo, genuinamente, deveriam ter acesso a tudo o que vem da natureza ... uns retendo enquanto outros vão padecendo ... uns buscando algo em detrimento de outros e do próprio bem ... não ! Hipocrisia não convém a quem se preze (e todos podem & devem !) ! A perfeição é possível e é em sua busca apenas que algumas experiências (e não em si próprias) podem justificar-se apropriadamente. É um grande desperdício acovardar-se e abraçar a mesmice perante um tempo (com todas as suas dimensões) em que tanto pode ser feito ! Escolha-se bem onde depositar o valioso A M É M ! Força & Amor ! HAB - OEBA! : )

kia disse...

Discos e livros não devem gerar desconforto em serem adquiridos.
Aqui em casa temos um lema. Nunca economizarmos em livros.
Como vc não ter discografia completa do Chico dentro de uma caixa em que a foto preto e branco brilha no papel couché e a edição comemorativa de Vidas Secas? O que os netos irão herdar dos avós? rsrsrs Bjs

Anônimo disse...

É tanta intelectualização que existe hj, e pouco sentir, experimentar...É muita informação e pouca espiritualização..

Cristina disse...

Também sobre o consumo, esse vídeo mostra um ponto de vista que é (no mínimo)interessante: Story of Stuff - http://www.youtube.com/watch?v=3c88_Z0FF4k&feature=related

Aluysio Robalinho disse...

Prezada Carol

Acesso muitos blogs, de diversas cepas ideológicas, opinativas, etc. A partir desse seu post, quero lhe informar que vc. terá a honra de possuir um link permanente na minha barra de tarefas. Pode não ser muita coisa sob o ponto de vista dos valores universais, e mesmo para vc., mas para mim o fato é de grande relevância e ocupa, por assim dizer, um lugar de honra em minha galeria particular e referencial dos valores da minha vida. De longe e de quando em vez entrava em seu blog para vislumbrar as coisas de Paris, uma cidade que mora no meu coração. Mas agora tornar-me-ei um habitué por razões ainda mais interessantes: sua maneira delicada, sóbria, porém precisa, de expor a diuturnidade dos fatos parienses é extremamente cativante. Voilá. C'est tout. Bonne chance!

Renato disse...

"Vocês não sabem como é divertido o absoluto ceticismo. Pode-se brincar com a hipocrisia alheia como quem brinca com a roleta russa com a certeza de que a arma está descarregada."

Millôr Fernandes

Maíra Brito disse...

o dilema pequeno burguês me soterra todos os dias. inexorável. não consigo escapar.

Anônimo disse...

É, Carol...vc não está sozinha meeesmo!
Beijo
Mari