quinta-feira, outubro 22, 2009

Pra não chorar

Além de tudo fiquei atônita com a reação das pessoas. Melhor: com a falta de reação das pessoas. Uma senhora é derrubada no chão, agredida e chutada em plena luz do dia e ninguém faz nada. Nada. Mas nada mesmo.

Eu não contava com o valentão brasileiro que sairia correndo atrás dos caras. Mas um apoio, uma palavra de revolta, um copo d'água, um telefonema pra polícia, uma mão pra ajudar a levantar, um olhar de consolo - qualquer coisa - eu achava que encontraria.

Paris tem fama de ser assim. Sei de gente que passou mal, que precisou de ajuda, que foi roubada ou agredida em pleno metrô ou no meio da rua enquanto os passantes simplesmente passavam. Já achava um absurdo, mas agora acho mais: sofrer uma violência sozinha é desolador. É outra violência.

Tarde da noite, repassando a cena pela milésima vez, me lembrei de uma figura que se aproximou da gente quando já estávamos dentro do carro. Me agarrei com esperança à imagem etérea de um senhor grisalho perguntando qualquer coisa que, na hora, minha cabeça não conseguia registrar. Você escutou o que ele queria?, perguntei.

Estacionar, disse o Beto. Queria saber se a gente ia sair da vaga ou o quê.

Pode rir. Eu ri também.

12 comentários:

Renato disse...

Primeiro mundo. Povo educado na Sorbonne, intelectualizado. Vanguardistas.

Marina disse...

Atônita, assim cheguei ao final do seu post. E, é verdade, segurando uma palavra -das sujas - para não sair da minha boca. Queria ter a boa ironia do Renato aqui de cima. Beijo, Carol.

Paola disse...

Amiga!! Tô em choque!!! E a verdade é que, por mais charme e glamour que Paris possa ter, é igual a qualquer outra cidade moderna, né? Ou seja, não se escapa da violência.

Sinto muito, de coração, por vocês. Espero que a dor, o susto e a revolta sosseguem no coração. Porque passar, mesmo, eles nunca passam.

Força!

RC disse...

Isolamento. Individualismo. É o nosso presente. Por isso reclamo tanto de Brasília. Se já não estamos aí, estamos a caminho e a passos largos.

Espero que recupere a inocência...

Amanda disse...

A violência daqui é diferente, né? Parece gratuita, covarde e injustificada. Da a impressao que o objetivo é a violência pela violência, nao o roubo em si.

As pessoas nao interferem pq tem medo. Esses caras de cité nao tem nada a perder. E depois acho que ninguém fala nada pq ficam com vergonha de nao ter ajudado. Mesmo pq é contra a lei nao ajudar uma pessoa em perigo.

Espero que ela esteja bem agora e nao leve uma impressao tao horrivel de Paris.

Helena disse...

Eu acho que na França tem uma cultura de não interferir na vida dos outros nunca, de maneira alguma. Isso tem um lado positivo e o negativo, como vocês está presenciando. Enquanto aqui no Brasil juntaria um bando de gente em torno da questão querendo ajudar, fazer algo, os franceses simplesmente ignoram qualquer coisa que não lhes diga respeito. Uma vez, em Aix-en-Provence, vi uns meninos de uns 12 anos roubando um pote de Nutella de um senhor que fazia crepes e que tinha saído para ir no banheiro, acho eu. Atônita com a situação e vendo que ninguém fazia nada, tomei coragem e com o meu francês todo errado chamei o grupo de jovens e literalmente arranquei da mão do jovenzinho o pote e comecei a questioná-lo. As pessoas que passavam nem olhavam. Daí, um senhor resolveu entrar na história e levou um cuspe na cara de um dos meninos. E todo o mundo seguiu sem fazer nada. Eu, que sou contra a violência, já teria puxado esse menino pela orelha e dado uns cascudos. Mas não fiz porque sabia que poderia acabar presa se fizesse isso na França. Assim como acho que esse senhor, que foi agredido, também achou o mesmo. Essa história é, claramente, muito menos grave que a sua, mas é só para relatar o quanto a sociedade francesa parece ter medo do outro ou simplesmente ignora-o.
Um abraço!

asnalfa disse...

Existe uma especia de Febem ai na França?? O que acontece se um menino de 12 anos matar um cara?? Vai pro presidio normal???

Anônimo disse...

Esse negocio de violenca esta em todo lugar.

Bel Butcher disse...

Eu nunca acreditei nisso. Nessa cegueira francesa. Porque eles são também engajados, eles também gostam de ajudar. Mas, pelo visto, são as exceções. E elas confirmam a regra. Infelizmente.

Já ouvi inúmeras histórias de agressão no metrô. O cara dá uma porrada em alguém e leva seu celular. Uma vez, a pessoa saiu atrás para reclamar com o cara e ele voltou e deu outra porrada na pessoa! Coisa de louco. Deu tempo pro cara bater, roubar, sair, voltar e dar outra porrada e ninguém, ninguém fez nada!

Anônimo disse...

É o modo de pensar dos "Sobornistas"!Escondo-me atrás de qqlr livro e não vi nada...Até agora não entendo como chegam ao destino?????

Toilet disse...

Nossa, me senti tão segura os dias que passei ai, e ainda mais segura em Londres. Mas pelo visto é tudo muito igual. Aqui também é assim. Várias coisas acontecem e as pessoas ficam sem saber o que fazer, paralisadas, ou acostumadas com o que estão vendo.

Laura - Sicrana

Anamaria disse...

Carol, acho que entendo sua revolta com a indiferença geral.Passei por isso em Brasília alguns anos atrás. A situação era outra, mas a indiferença era a mesma, e me deixou tão revoltada quanto a violência que sofri. Me safei do perigo e me recuperei do susto, mas perdi um pouquinho da fé nos meus "semelhantes". Desejo, de coração, que isso não aconteça com você.
Um grande beijo,
Ana.