domingo, março 13, 2011

Heroicamente doméstico



Uma revolução de costumes está acontecendo embaixo dos nossos olhos, somos testemunhas vivas da história: o homem no Brasil mudou de papel social.

Essa geração de homens que temos em casa, com quem convivemos no trabalho, são a consolidação das conquistas feministas da geração das nossas mães. Ainda que concordassem com as reivindicações das mulheres (em tese), nossos pais não trocavam fraldas, não compartilhavam a responsabilidade com as louças depois do almoço, raramente passavam o aspirador ou cozinhavam.

Agora os homens brasileiros (como há décadas os europeus) fazem tudo isso. É preciso reconhecer: nossos homens põem a mão na massa. Agora só falta eles entenderem que não há nada demais nisso.

Na sutil matemática dos relacionamentos – onde o western de hoje garante o filme romântico na semana que vem – as tarefas masculinas na casa pesam em dobro.

Quando o cansadíssimo provedor do lar se dispõe a lavar a louça acumulada, fica subentendida a distância da cozinha por no mínimo dois dias. O almoço preparado com toda a sua parafernália de pseudo-chef é considerado a tarefa hercúlea da semana.

E quando é a gente? Não é mais que a nossa obrigação, certo?

O homem que busca os filhos na escola, que os leva ao parque, que os acompanha em todas as atividades diárias vira assunto nas rodinhas: viu só como ele ajuda? Só o verbo já dá a dimensão do drama: não é que seja sua responsabilidade – ele “ajuda”.

É ótimo que a participação masculina nas atividades domésticas seja hoje efetiva e regular. Mas por que eles esperam um reconhecimento especial por isso?

Assim como nós, eles também não fazem mais do que sua obrigação.


22 comentários:

Felipe disse...

Acho meio arrogante não reconhecer essa ajuda, não agradecer. Toda vez que minha namorada lava a louça ou faz algo que tem cara de tarefa, eu agradeço e às vezes até a impeço de fazer, querendo eu mesmo ajudar. Acho que é no minimo justo a gente ter o mesmo tratamento e reconhecimento. No mínimo, é carinhoso.

Senão fica com cara de obrigação.

Beijocas!!!

Marcel Albert disse...

Porque isso é novo tanto para nós como para vocês, mulheres...
Nas próximas gerações isso se resolverá. Pode ter certeza e deixará de ser um novidade.

Carol Nogueira disse...

Felipe: É obrigação. Dos dois, igualmente.

Felipe disse...

Então tá. Toda vez que ela lavar a louça, não vou agradecer e vou dizer pra ela que é obrigação.

:)

Didi disse...

É bom ler isso ! Felizmente nós acompanhamos a evolução feminina/masculino aqui em casa (não é sempre, é verdade,só quando o futebol e o violão deixam...).É muito melhor fazer essas obrigações com acompanhante: eu ensaboo, ele enxagua; eu limpo meu lado do armário, ele limpa o dele; eu varro a área, ele coloca o lixo no cesto...né não? O tempo passa rápido e enquanto isso a gente conversa, às vezes sai uma briguinha, vê um filminho na tv da cozinha... É bom! e nem precisa agradecer... Por essas e outras é que lá se vão 38 anos...
bjs

ricardo disse...

mas Carol, os homens até a nossa geração ( ou melhor , até a sua ) foram criados por mamães que mimaram seu filhos... Por isso, crie seus pimpolhos para que um dia eles morem sozinhos e aí, já que não tem ninguém prá fazer, farão sempre a obrigação ! Beijo!

Mariana disse...

Amém! Aplausos fervorosos!!!

Tamine Maklouf disse...

Carol, mas uma vez concordo muito contigo. Mas entre tantas verdades ditas, para mim o melhor foi: "parafernália de pseudo-chef". Os homens hoje em dia (depois dos 28 anos, quando a vida boêmia já não é mais tão divertida) começam a ver Jamie Oliver e ficar empolgadíssimos. Querem comprar todos os temperos exóticos e gadgets de pseudo-chefs (que ocupam um lugar danado na cozinha) para realizarem aquele jantar especial uma vez a cada dois meses.

Beijos!

Princess Deluxxe disse...

detesto esse verbo 'ajudar', qdo as pessoas deveriam dizer 'compartilhar', 'dividir' ou coisa do gênero.
mas acho q já nasceram vários homens q se comprometem sem expectativas de lucro ou agradecimentos futuros. Gastão é um desses.
=)
bjosss

Vinicius disse...

Eu acho tão óbvio.
Se os dois comem, a obrigação de limpar também é dos dois. Pronto!
Mas na minha família metida a Tradicional (hipocrisiaaa, eu quero uma pra viver) o povo ainda se comporta como se tivesse no século XX.

Renato disse...

"Todo homem que sabe o que quer pega o pau pra bater na mulher."
Marcelo Nova, Camisa de Vênus.

Anônimo disse...

Carol, ainda bem que o seu marido ajuda...pq o meu, cismou que a tarefa dele é lavar a louça e só faz isso. Estender a roupa, limpar a casa, dar banho no cachorro e descer com ele, é tarefa minha.

José Fernando disse...

O Felipe está certo. Para que transformar a vida conjugal numa competição árida se podemos muito bem entender cada gesto do outro como uma contribuição carinhosa à convivência? É bom agradecer e é bom ser reconhecido por esses gestos.

solica disse...

A divisão é de tarefas e despesas? ok então.Tudo combinado e acertado antes? Então tá.

Diana disse...

Ôu daí de cima, tu quer uma mulher ou uma empregada? Melhor acertar antes mesmo! Tu paga e ela labuta! Num tô nem acreditando no que li, o peste teve mesmo coragem de escrever isso??? Carol, tá vendo? Ou tu é mesmo de uma sutileza invejável ou tá mto por fora... O típico macho brasileiro resiste!

Rodrigo disse...

Ontem à tarde fui num parquinho ali na rue Vieille du Temple e fiquei impressionado com o tanto de homens levando seus filhos pra passear.

Josi disse...

Oi Carol,
Adoro seu blog, é um prazer ler seu textos. Essa discussão sobre o papel da mulher e do homem no quotidiano, dà pano pra manga depois de gerações... Talvez seja mesmo uma questão de educação que nossos homens esperem "reconhecimento" da "evolução", pois eles fazem diferente de seus pais... Cuidar da vida doméstica é diferente na Europa onde que "enfrentar" tudo, jà no Brasil: ou você tem uma doméstica ou você é doméstica.

Gil Sampaio disse...

Caramba ainda não tinha visto essa situação por esse angulo, esclarecedor, realmente nos homens temos essa postura e nem percebíamos porque nossa cultura machista ta no DNA. Só que o DNA Cultural é mutável, basta nos colocarmos como espectador do dia-a-dia das nossas mulheres que eu acho que logo vamos começar a mudar velhos paradigmas sociais.

Texto Gostoso esse.
boa tarde pra todos aqui no Brasil boa noite pra Europa, bom dia pra Asia.

Gil Sampaio disse...

Carol deixa um comentário no meu BLOG com seu nome completo, e-mail, cidade e estado, para concorrer a um DVD do filme Quase dois Irmãos de Lúcia Murat.
Ação pra fazer o filme do Cinema Nacional!

http://gilsampaio.blogspot.com/

E se vc poder ajudar e divulgar meu blog para os seus seguidores, agradeço.

Beijos

Anônimo disse...

Recomendo o filme: We want sex equality.

A melhor cena do filme é quando o marido super cooperativo vai ficando cansado de cuidar dos filhos, da casa, dos efeitos da greve e vai dizer para sua esposa que ele é um bom marido: que ele ajuda, que ele não bebe, que ele não bate na esposa, que ele da' apoio a ela e à familia....

E ela responde: "Você esta' se escutando? Isto não é um privilégio, é um direito. E' assim que deveria ser."

Não é um privilégio... mas muitos homens ainda acham que é...

E os queridos que lavam a louça... os estudos de gênero mostram que mesmo nos casais que compartilham as tarefas, em geral, as tarefas mais depreciativas oud esagradaveis ficam ainda para a mulher....

Ana Chalub disse...

já perdi um amigo por dizer a ele (quase brigando!) que a obrigação de cuidar da filha era igualmente dele, e não apenas da mãe da criança. hoje, sou mais amiga da mãe.

Dandara disse...

meu filho vai brincar de boneca e de carrinho ao mesmo tempo.