sábado, dezembro 03, 2011

A piada sobre meu nariz


Teerã, Irã

Eu era engraçada antes. Engraçada mesmo. Tudo o que eu dizia ou fazia era engraçado. Acho que você teria rido. E eu ia achar legal. Queria poder te provar como eu era engraçada antes, eu ia ficar ainda mais engraçada tentando. Eu sei que é difícil de acreditar quando você me vê agora. Eu sou tão bonita, né? Não sou bonita? As meninas bonitas não têm nada de especial. Elas se parecem com aquilo com o que todo mundo sonha, mas elas não se parecem com nada muito específico. Quando alguém descreve uma pessoa bonita, é mais ou menos assim: "Ah, essa menina, a Ashley, ela é tão bonita!". Mas quando a gente descreve meninas que não são tão bonitas, há sempre alguma coisa a mais a se dizer sobre elas, sobre a aparência delas. Ah, Maria é aquela com os cabelos esquisitos, ou Taina, as pernas delas são meio curtas mas ela têm seios maravilhosos.

Antes, quando eu era engraçada, eu parecia engraçada. Eu era como se algo imprevisível estivesse sempre a ponto de acontecer. Isso tinha a ver com meu nariz. Ele era grande, feio e engraçado. Meu nariz era engraçado. Você me encontrava, você encontrava meu nariz. Oi, bem-vindo ao meu nariz. Eu não tinha rosto. Só um nariz. Só um grande nariz ridículo e engraçado. Pode ser tão intenso um nariz. Quer dizer, você já parou realmente um tempo pra olhar o seu? Eu olhava o meu o tempo todo. Ele me impressionava. O que é exatamente um nariz? Até a palavra é engraçada. Nariz. O conceito do nariz.

Meu nariz deixava todo mundo à vontade. Ele soltava as línguas das pessoas. Um pouco como uma garantia de confiança. É complicado de explicar, mas meu nariz me dava todos os direitos. Ele me tornava audaciosa. Eu me dizia: já que você nunca vai ser uma delas, então seja você mesma. Eu era a palhaça da minha classe. Eles me chamavam de Gonzo. Como a marionete.

Meus parentes não são malvados. Eu sei que eles me amam. Eu sei que eles querem o melhor para mim. O que eles acreditam ser o melhor para mim. Eles acham que sabem. Por amor, meus pais planejaram, organizaram e finalmente conseguiram matar meu nariz. Assassiná-lo.

Aos meus 16 anos, eles pagaram um homem para tirar meu nariz. Eles contrataram um matador de aluguel para colocar meu pobre nariz no chão. O único problema é que meu nariz era apegado a mim.

Eu não tinha nem ideia do que me aguardava. Eles não paravam de me dizer que eu seria feliz, que tudo seria melhor e que eu os agradeceria porque toda a minha vida seria mais fácil. Eu pensava que eles iam me levar ao Paradise Change, que eles iam me levar para comer no meu restaurante chinês preferido. Ao invés disso, a gente chegou numa pequena clínica. Eu não entendia nada. Havia um doutor que, estranhamente, tinha um nariz grande também. Ele me disse que seria um procedimento realmente muito simples. Minha mãe tinha uma cara meio culpada, mas ela continuava a sorrir. Depois o doutor me sedou com medicamentos. Eu não me lembro de nada. Quando eu acordei, sentia uma náusea horrível e eles estavam todos estranhos andando em volta de mim, eu sabia que alguma coisa de grave tinha acontecido. Eu comecei a vomitar carne, osso e sangue. Meu nariz escorria para todo lado, martelado, reduzido em migalhas. Eu chorava e eu não sabia exatamente como chorar sem nariz. Meu pai pegou minha mão e disse: "você vai ser uma princesa agora" e eu respondi: "eu não quero ser uma princesa. Eu era feliz palhaça. Meu nariz me transbordava mas ele me dava uma história, um mistério. Ele era o que eu era. E agora não sobrou mais nada além dessa confusão no meio do meu rosto. Eu era a Mesopotâmia e agora eu não passo de um centro comercial".

Eu sei que é difícil de acreditar mas eu nunca quis ser bonita. Eu me sentia mal por todas essas meninas bonitas que a gente vê por todo canto. Elas não abrem a boca, nunca fazem nada de especial. Só... bonitas. Peixes num aquário. Nadando em círculos, observando. De vez em quando beliscam comidinha de peixe, mas só beliscar, hein?, porque bonitas e magras são sinônimos, a gente sabe bem. É um pouco esse o problema quando a gente é bonita. Quer dizer, isso ocupa sua vida inteira. Não fazer nada. Eu sou bonita. Eu faço tudo bonito. Eu não como. Eu provo. Eu ando em círculos. Eu sobrevoo. Eu me privo. Eu passo fome. Como eu não como, não tenho muita energia. Na verdade é a comida que faz funcionar seu cérebro. Então todas essas pessoas bonitas se movem mais lentamente. Não é culpa delas. Elas não aguentam fazer muita coisa. Elas não tem muita imaginação. De novo: elas também não precisam muito. Elas são bonitas.

As pessoas engraçadas comem o que elas querem. Eu adorava comer. Você pode aproveitar a fundo. As pessoas engraçadas aproveitam tudo.

As pessoas bonitas só andam com gente bonita também. É mais ou menos isso. Um concurso de gente bonita. Sua vida inteira dedicada a ser a mais bonita.

Sinto saudades do meu nariz. Todos os dias eu o esfrego e sonho em dizer mentiras como o Pinóquio pra ver se ele cresce de novo. Eu tinha um encontro com um garoto que me achava bonita. Eu não sou realmente bonita. Ele entendeu isso como falsa modéstia. Eu não sou naturalmente bonita. Eu sou uma falsa bonita. Ele não entendeu e me beijou porque é isso que fazem os garotos quando eles não entendem alguma coisa e não querem ficar com cara de idiota. Quando ele me beijou, ele não encontrou nenhum obstáculo. Foi muito fácil. Eu nem tive a oportunidade de fazer uma piada. Foi triste porque normalmente a piada sobre meu nariz sempre fazia o garoto rir e isso relaxava a gente e o beijo era sempre muito melhor depois.

+ Normalmente, eu não publico textos deste tamanho. Normalmente, eu não publico textos de outras pessoas. Normalmente, eu não finjo que sou tradutora. Mas dessa vez eu achei que valia a pena abrir uma tripla exceção.
+ "Je suis une créature émotionelle", Eve Ensler. No original em inglês, "I'm an emotional creature". 
+ Edit: é impressionante como este texto me faz pensar neste post.

5 comentários:

gisele teixeira disse...

Esse texto é linnnndo!!!

Fábio Minghetti disse...

Curti!

Helena disse...

Eu tenho um narigão, vivi com ele 31 anos (e ainda vivo com ele). Mas agora que estou grandinha, pensei que poderia dar uma "retocada" para ficar mais harmônico (não reduzir o tamanho, mas só ajeitar o que está torto). Mas isso nunca foi uma prioridade e vou deixando passar, vivendo com ele... pensando bem, acho que nunca vou dar essa ajeitadinha, pois acho que vou me sentir um pouco como a pessoa que escreveu esse texto.

Arvie Wilson disse...

and always be pretty :)
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Shanele Lacson disse...

nice. its so beautiful


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